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Opinião: A China vai trazer-nos amostras de um asteroide

05 de junho de 2025 às 09 h09
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O programa espacial da China continua de vento em popa. A Administração Nacional Espacial da China (CNSA), normalmente conhecida apenas por Agência Espacial Chinesa, tem a Estação Espacial Tiangong, de momento com 3 astronautas a bordo, que deverá continuar operacional por mais cerca de 10 anos.

A missão Chiang’e-5 trouxe amostras do solo lunar em 2020. A Tianwen-1 fez chegar ao planeta Marte o rover Zhurong, em 2021. E no passado dia 28 de maio, foi lançada a missão Tianwen-2 do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, a bordo de um foguetão Longa Marcha 3B.

A missão Tianwen-2 deverá durar no total cerca de 10 anos. Vai agora a caminho do asteróide 469219 Kamo’oalewa, também designado por 2016 HO3, ao qual chegará em 2026. Este asteroide é classificado como «asteroide próximo da Terra» ou NEO, do acrónimo em inglês. Tem um diâmetro algures entre os 40 e os 100 metros, rodando sobre si próprio em pouco menos de meia hora, e orbitando o Sol num ano terrestre e pouco mais de meio dia! Ou seja, tem de facto uma órbita semelhante à nossa podendo até ser um fragmento da colisão que criou a cratera Giordano Bruno na Lua — uma cratera com 22 km criada há alguns milhões de anos —, segundo o trabalho publicado na revista Nature Astronomy por Yifei Jiao e colaboradores, em 2024.

A chegar ao asteroide Kamo’oalewa, irá primeiro cartografá-lo e só depois irá extrair amostras de algumas centenas de gramas. Pode não nos parecer nada intuitivo, mas é extremamente difícil extrair uma amostra de uma coisa cuja atração gravitacional é quase nula. Ou seja, isto em nada se compara com fazer descer um balde num poço, aqui na Terra, pois a gravidade puxa-o para baixo, içando-o depois para cima já cheio. Na verdade, a velocidade necessária para sair da órbita desse asteroide é de apenas 2,5 centímetros por segundo. Ora, as pulgas conseguem dar saltos com velocidades de quase 2 metros por segundo, portanto, se uma pulga lá saltasse… sairia da órbita.

Curiosamente, até um caracol precisaria apenas de correr 40% mais depressa para entrar em órbita à volta de Kamo’oalewa. Por isso mesmo a missão vai tentar três métodos diferentes para recolher a amostra. Um consiste em tentar igualar a velocidade de rotação do asteroide, ficando sempre por cima do mesmo local, enquanto um braço robótico extrai a amostra. Outro, consiste num toca-e-foge com uma espécie de escovadela. E, por fim, fará também pousar no asteroide uma cápsula com «pernas parafuso» para que a ele se consiga agarrar. Uma vez recolhida a amostra, a missão regressará à Terra em 2027, sem nela aterrar, para lançar a cápsula — talvez se comprove que o Kamo’oalewa é de facto um antigo pedaço da Lua.

Mas a Tianwen-2 não termina aqui. Após lançar a cápsula com a amostra do asteroide seguirá outro rumo, desta vez para ir ao encontro do cometa 311P/PANSTARRS, também conhecido por P/2013 P5. Um cometa classificado como «cometa da cintura principal», ou seja um cometa que se encontra dentro da cintura de asteroides que existe entre as órbitas dos planetas Marte e Júpiter.

Desde a descoberta do primeiro asteroide, em 1801, até hoje, já identificámos cerca de um milhão e trezentos mil asteroides. Mas só em 2006 descobrimos que dentro dessa cintura também existiam alguns aparentes cometas, ou seja, corpos celestes que quando estão mais perto do Sol criam umas caudas de poeiras e gases, caudas essas que desaparecem quando estão um pouco mais longe e mais frios. Ainda não compreendemos como é possível este tipo de cometas «sobreviverem» ainda hoje naquela região sem não terem já evaporado todos os seus gelos, algo que os impediria de criarem novas caudas. Visitar um, irá certamente ajudar-nos a resolver este enigma, mas temos de esperar até 2035.

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