diario as beiras
opiniao

Opinião: A cantiga ainda é uma arma

03 de maio de 2025 às 10 h25
0 comentário(s)

Devido aos três dias de luto nacional pela morte do Papa Francisco, o Governo cancelou as celebrações oficiais do 25 de Abril e adiou-as para 1 de Maio. A abertura dos jardins de São Bento fez-se, assim, no Dia do Trabalhador, num evento chamado “São Bento em Família”, que teve como grande atração um concerto de Tony Carreira. O Governo quis uma festa com “atuações representativas da cultura tradicional portuguesa” e, por isso, para além do cantor romântico, incluiu um grupo de Pauliteiros de Miranda e outro de Cante Alentejano. A polémica instalou-se rapidamente: aos que criticaram o adiamento das celebrações e aos que vêm no nome “São Bento em Família” a ironia de ecoar um tempo a que Abril pôs fim, juntaram-se os que reprovaram a escolha do artista. De um lado, temos os que acusam de “snobismo” aqueles que acham que as celebrações da Revolução não se podem fazer ao som de Tony Carreira; do outro lado, temos os que defendem que celebrar a Liberdade ao som dos “Sonhos de Menino” é tirar-lhe dignidade.
Vamos por partes. Tony Carreira tem um percurso com mais de 30 anos e muitos fãs. A vida não lhe foi fácil: cresceu numa aldeia da Pampilhosa da Serra, onde a maioria dos citadinos nunca pisou, numa casa sem água, nem eletricidade e, sem perspetivas de futuro, fez o que estava reservado a quem sonhava, naquele tempo: emigrou. Já em França, começou a trabalhar como operário fabril, mas nunca desistiu da música, mesmo quando recebeu zero pontos numa semifinal do Festival da Canção, mesmo quando lhe disseram que nunca seria cantor. Hoje, é o artista que mais vezes tocou no Pavilhão Atlântico, tem mais de 60 discos de platina e de ouro, foi agraciado pelo Governo Português, pelo Governo Francês e pelos World Music Awards. O seu profissionalismo e exigência são reconhecidos por todos os que trabalham com ele. A vida continua a não ser fácil: a pior das tragédias bateu-lhe à porta quando, há uns anos, a filha morreu num acidente de viação. Mas Carreira transformou esta dor indizível numa fundação, com o nome dela, que ajuda crianças com dificuldades a cumprir-se. Se eu ouço a música do Tony Carreira? Não. Se me identifico com o que canta, com o que veste, com o que diz, com o estilo meloso-sedutor? De todo. Mas isso não me impede de reconhecer que ele é um homem que merece o nosso respeito e um músico que alcançou um lugar que todos afirmavam estar-lhe vedado, fruto exclusivo do seu trabalho e perseverança. E, sim, há a história de plágio, que é inaceitável. Mas foi a tribunal, reconheceu o erro, fez um acordo com o Ministério Público e uma doação à Câmara da Pampilhosa e à Associação de Apoio às Vítimas de Pedrogão Grande. Não é o erro que nos define, é o que fazemos dele. Em suma: o problema não está no Tony Carreira – quer se goste dele ou não. Está no contexto.
O 25 de Abril é luta, resistência e memória. Não é um arraial, nem uma festarola de verão. Querer musicá-lo com baladas românticas, música ligeira de paixão assolapada e saudade, melodias de amor populares e fáceis, que apelam ao bailarico e à lagrimita fácil, fere e atenta contra a memória de Abril porque Abril é, também, as suas canções. Quando falamos da Revolução dos Cravos, falamos de um tempo em que a música era uma arma, e fazer canções era um risco, de músicos que foram presos, torturados, estiveram exilados e invocaram toda a sua coragem para fazer a música de Abril. Coragem que pagaram com a vida, com a Liberdade, com a miséria. Há uma certa ironia nisto tudo, porque no fim do concerto, Tony Carreira deixou um recado: “às vezes, os partidos esquecem-se que aquilo que fica no tempo é a cultura” – disse e muito bem. Mas a cultura é também memória. O problema não está no Tony Carreira, que até se portou muito bem e, no dia 1, usou a sua voz para fazer mais do que cantar baladas românticas. Não é “snobismo”, é memória. É que a cantiga ainda é uma arma e, como disse o José Mário Branco, canto mole em letra dura nunca fez revoluções.

Autoria de:

Opinião

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao