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Opinião: 24 horas

04 de abril de 2025 às 10 h03
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São 8 da manhã e o Rui levanta-se da cama. A primeira coisa que faz é olhar-se ao espelho para obter a resposta que ele sabe que vai ter, que é o mais impoluto de todos os políticos. A Maria sai de casa às 6 da manhã para ir trabalhar e leva no bolso um espelho que lhe confirma que é a melhor mãe do mundo. O Tiago sai do escritório às 9 da noite com a certeza espelhada no rosto de que é o mais esforçado de todos os trabalhadores. Passam o dia a olhar discretamente para o espelho e nem se apercebem que os outros fazem o mesmo. Estão convictos da sua certeza fundamentada no espelho.
Até que um dia, um deles não encontra o espelho e os outros deixam-no cair e partir-se. A partir de então, a anterior certeza que cada um tinha, e que era inteira, foi resvalando para algo em que acreditam, com diferentes graus de segurança. Até que a dúvida se instala porque o que parece a um não parece aos outros. A final, não sabiam que uma convicção bem fundamentada alicerça-se numa não fundamentada. No final do dia, pensavam que sabiam.
Esta conclusão obtiveram-na quando se encontraram entre eles. Desprovidos dos seus espelhos, e sem saberem qual a pergunta diária do outro, tacteavam contactos supérfluos e inseguros, sem se aperceberem que ao longo do tempo foram adoptando uma conduta de respeito recíproco. Do primeiro passo de não quererem que alguém soubesse que não tinham o seu espelho, passaram a proteger o segredo dos outros, que não queriam prejudicar.
Da indiferença egoísta, que finge que os seres humanos nada têm a ver com a conduta dos outros, passaram a preocupar-se com o sucesso e o bem-estar uns dos outros, num esforço contínuo desinteressado e constantemente promovido, nunca diminuído. A bem de todos, 24 horas por dia.

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