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O SNS vai a Belém

03 de dezembro de 2025 às 11 h48
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Há uma constante nas campanhas presidenciais portuguesas: a relutância quase ritual dos candidatos em aceitar que o Presidente não é o sumo-sacerdote da saúde nacional. Não ergue hospitais por decreto, não convoca médicos por milagre e não reorganiza urgências por decreto moral.

Mas esse detalhe constitucional, sempre tão inconveniente, não impede estes aspirantes de insinuar que Belém poderia, por vago feitiço político, transformar-se num ministério da Saúde improvisado, com poderes que existem apenas no folheto da campanha, nunca na Constituição.

António José Seguro regressa ao debate com a serenidade de quem vê o SNS como uma espécie de património emocional da nação, um azulejo antigo que se deve preservar com devoção. Fala em “defesa”, “restauração”, “missão pública”, como se o Presidente fosse simultaneamente chefe de Estado e curador de museu sanitário. É um discurso doce, nostálgico, mas absolutamente incapaz de explicar como é que Belém poderá resolver o que anos de governo não resolveram. Seguro promete com alma; a Constituição, porém, não acompanha.

Marques Mendes é para muitos, a versão de bolso do Marcelo comentador, embora, ao contrário do mestre, não possua nem o lastro histórico, nem aquela maleabilidade interpretativa que permitiu ao original transformar monólogos televisivos em passaporte para Belém. Mendes diz tudo, comenta tudo. O drama surge quando tenta converter esse magistério dominical em ambição presidencial: o cargo que pretende não lhe permite executar uma vírgula do manual de reformas, que tão diligentemente recita. É a ironia perfeita: o país gosta de o ouvir comentar; o país não o quer ver mandar.

Catarina Martins surge como sempre: intensa, empenhada, quase épica. Para ela, o SNS é muralha, trincheira, epopeia. Denuncia ameaças invisíveis, convoca resistência moral e ergue o debate sobre saúde a uma espécie de cruzada pública. O problema? O Presidente não convoca batalhas nem distribui orçamentos. É uma tragédia tão teatral quanto previsível.
Depois aparece António Filipe, o guardião da ortodoxia comunista, sempre pronto a transformar o SNS num símbolo supremo da luta de classes. Propõe reforços inesgotáveis, planos abundantes, recursos ilimitados, como se Belém tivesse um cofre soviético guardado atrás de um biombo. O seu romantismo estatal é admirável; a sua pertinência funcional, nula.

Gouveia e Melo surge como comandante de operações, disciplinador de desordens, estratega de contingências. O seu discurso vem arrumado em caixas herméticas: clareza, método, determinação. É tudo impecável, e tudo inútil num cargo que não comanda hospitais, não dá ordens a administradores e não dirige sistemas como se fossem navios militares.

André Ventura segue fiel ao seu estilo: indignação coreografada, promessas instantâneas e soluções mágicas. Na sua campanha, a saúde é um problema resolúvel através de pura determinação emocional. É uma fantasia operática onde um Presidente furioso reorganizaria o país inteiro, pena que a Constituição não reconheça “irritação presidencial” como instrumento executivo.

Cotrim de Figueiredo apresenta a prosa mais limpa e tecnocrática: liberdade de escolha, eficiência, racionalização, parcerias inteligentes. É o único que parece falar para adultos. Mas cai no mesmo paradoxo: descreve reformas estruturais que exigiriam um governo corajoso, não um Presidente armado apenas com vetos.

No fim, permanece a grande ironia: os candidatos querem ser Presidentes, falam como Primeiros-Ministros e prometem como salvadores. A Constituição observa, paciente, resignada, e talvez até divertida, enquanto Portugal assiste a mais uma campanha onde Belém se transforma, por fantasia coletiva, no maior hospital público que o país nunca terá.

Autoria de:

Luís Teixeira

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