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O pecado original

06 de janeiro de 2026 às 11 h05
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Na sua “Introdução ao Cristianismo”, Ratzinger recorda a metáfora, de Kierkegaard, em que um palhaço trajado a rigor e pronto a atuar no circo tem subitamente de ir procurar ajuda à vila mais próxima por a tenda se encontrar em chamas, ameaçando alastrar ao povoado.

Apesar de a mensagem que tem a transmitir ser urgente e vital, os moradores julgam estar perante um truque publicitário e ninguém o leva a sério vestido naqueles trajes, acabando a vila por soçobrar ao incêndio. O palhaço representa o teólogo contemporâneo, “vestido como um palhaço com roupas da Idade Média ou de um outro passado remoto qualquer.”

Os dias mais recentes têm sido férteis em invocações destas vestes antigas, a começar pela primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV (à Turquia) para a celebração do 1700º aniversário do Concílio de Niceia, onde a Igreja alcançou um resumo consensual da fé cristã que ainda hoje é partilhado por todos os cristãos. Também a celebração da Imaculada Conceição, assente na noção de pecado original, remete para trajes fora de moda.

Esta noção conta-se entre as mais fecundas das ideias em que é rico o judeo-cristianismo. Ao contrário de muitas tradições espirituais, que apresentam o bem e o mal como forças gémeas que moldam o mundo, a perspetiva judaico-cristã é radicalmente otimista. Assim, logo no relato da criação se afirma sem qualquer dúvida, após cada invocação poética dos sucessivos atos criadores: “E Deus viu que era bom”.

Como se explica assim a existência do mal? A tentativa de resposta encontra-se no relato subsequente: estando os primeiros viventes no jardim do Éden recebem a proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal: “dessa não deves comer, pois, no dia em que dela comeres, morrerás.” Segue-se a tentação da serpente: “«Não morrereis certamente! Pois Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal» Nesta mundivisão, o mal surge assim radicado na soberba humana em achar-se digna de abarcar todo o conhecimento sobre o bem e sobre o mal, igualando-se à condição divina.

Vestes de palhaço, considerarão os sages. E contudo, o mundo à nossa volta pulula de “divindades” que abarcam tudo o que há a saber. Num divertido episódio entre dois grandes físicos do século XX, Albert Einstein comentava insistentemente que Deus não jogava aos dados, respondendo Niels Bohr, exasperadamente: “Pare de dizer a Deus o que é que Ele deve fazer!” Desde os mais eminentes líderes mundiais às redes sociais onde ocorrem indigestões verdadeiramente assassinas do fruto da árvore do conhecimento (e não raro também da árvore do desconhecimento), não falta quem tenha instruções sobre o bom governo do Universo.

Esta soberba mortal, transversal a toda a humanidade, impele-nos a vestir as escamas daquele que S. João sabiamente descreve como “o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus”.

Em mais um adereço circense, junta-se a antiquíssima receita: “contra a soberba, humildade”. E, em prova de um esperançoso mas realista otimismo, é proposto o exemplo de Santa Maria, cujo cântico é bem expressivo a este respeito: “Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.”

Autoria de:

Rui César Vilão

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