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Memórias de Ormuz (parte 5) Irão-2012

11 de abril de 2026 às 17 h00

“AQUI JAZ GASPAR MOURA” lia-se numa lápide tumular que escapou mais ou menos ilesa à passagem dos séculos, e que se encontra exposta no pequeno museu da fortaleza de Ormuz. Não é a única, já que ao seu lado outra indica alguém que “FALECEO A XXV DE JVLHO DE 1589 ANOS”. As paredes estão decoradas com ilustrações desta monumental construção, onde sobressai uma pequena folha A4 com uma impressão a preto e branco de uma edição portuguesa sobre “a fortaleza de Ormuz no século XVI. Reprodução das lendas da Índia de Gaspar Correia”. Percebe-se que houve ali mão nacional, quiçá fruto de algum protocolo celebrado entre os dois países.

O funcionário percebeu que eu queria conhecer ao pormenor aquele património. Como não havia mais visitantes por ali, pegou num molho de chaves e fez-me sinal para o seguir. É duro sair para um exterior quente como nunca senti, com o termómetro a passar os 50 graus centígrados. Mas o tempo começava também a escassear pois ainda tinha de apanhar um barco de volta para Bandar Abbas, pelo que nem pensei duas vezes.

Caminhámos sobre um solo arenoso avermelhado, em pleno mês de Agosto. Só imaginava como seria a vida dos militares portugueses aqui destacados há meio milénio atrás, sob estas duras condições climatéricas, a envergar uma armadura e capacete de ferro enquanto empunhavam uma espingarda ou uma espada. Dói, só de pensar. Não é humanamente possível viver nestas condições, assim exposto à barbaridade de um calor que não se consegue aguentar.

O funcionário aponta para o chão enquanto acenava para me aproximar. Havia ali umas escadas que davam acesso a uma câmara subterrânea coroada por arcos em ogiva góticos, e entramos para aí nos refugiarmos. O calor é menor, mas o espaço é extremamente abafado. Fico encharcado em suor, e nem as calças escaparam. Indica-me que ali era a igreja, um dos espaços mais importantes da feitoria, apesar de já não ter nada que indique esse fim sagrado.

A torre de menagem alberga o maior tesouro que esta fortaleza tem, já que pode ditar a sobrevivência dos ocupantes em caso de cerco: uma cisterna. Um enorme buraco, com vários metros de profundidade, garantia a subsistência a uma guarnição que rondaria as quatro centenas de soldados.

A minha água já tinha acabado, e o funcionário já olhava para o relógio pois era hora de fechar. Com a pressa que também eu tinha, acabei por lhe pedir boleia na sua moto. (continua)

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