In Memoriam
Conheci o Amadeu Carvalho Homem em 1967 em Tomar no Quartel General, na 3.ª Repartição. Era estudante de Filosofia, depois de andar pelo Direito, mas foi apanhado pelo tal serviço militar obrigatório que nos exasperava o juízo. Eu já era licenciado, casado e vi, durante essa estadia, nascer o meu filho Luís Filipe e também, com poucos dias de diferença, morrer o meu pai. Então, a tropa era ali uma boa maneira de descansar das agruras da vida e da expectativa de embarcar para uma guerra nas colónias ou no “Ultramar”, como oficialmente então se dizia. Vários aspirantes e tenentes milicianos (estes a completarem os seus cursos ou a ganhar algum dinheiro no início de vida) alegravam aquele quartel sem marchas nem tiros, onde alguns capitães e oficiais superiores nos iam aturando. A messe e a sala de oficiais eram excelentes lugares para discutirmos ideias políticas até que algum oficial mais salazarista nos ameaçasse com a PIDE. Assim sucedeu com um capitão a quem fazíamos anteceder o seu nome com a proposição alemã Von (recordo o seu nome, mas não digo, por respeito para com a sua família).
Porém, de uma maneira geral, era “gente boa”. O chefe de Estado Maior era o Tenente-Coronel Arriscado Nunes, por quem o Amadeu e eu nutríamos uma consideração especial, e o Comandante o General Amaro Romão, que veio a ser director da Academia Militar e a quem — segundo Matos Gomes — se devia uma certa abertura. À sua maneira, foi preparando Abril. Mas também, como era costume na altura, gostava de uma certa “circunstância” (não digo “pompa”) na sala de refeições da messe e um dia lembrou-se de ordenar que ao jantar levássemos casaco e gravata. E lá fomos nós, o Carvalho Homem e eu, assim como os outros alferes, com os casacos mais mirabolantes e as gravatas mais esquisitas para cumprir a ordem. No dia seguinte o general entendeu a mensagem e deu a contra-ordem. Estávamos no Verão e poderíamos usar vestuário decente mas adequado à estação, sem casaco e gravata.
Depois lá fui, aí por Setembro-Outubro, para o RAL 1 (que veio a chamar-se RALIS, quartel bem conhecido de todos nós pelos acontecimentos do pós-Abril) e dali parti para a Guiné. Fiz no Uíge 26 anos e receava não voltar. O Carvalho Homem, mais felizardo, ficou por aqui em qualquer outra “guerra”.
Mas, felizmente, voltei… Convidado para assistente, reencontrei o Amadeu já eu era docente na Faculdade de Letras. Dava as aulas práticas e avaliava os alunos de História da Cultura Moderna, estudantes de História, mas também de Filologia Românica e de Filosofia. O Carvalho Homem, que era estudante em regime militar, sobressaiu no exame e eu e o meu mestre Silva Dias demos-lhe uma nota alta. Tínhamos por ele grande consideração intelectual, a ponto de o Professor o vir a convidar para assistente depois de se ter licenciado. Recordo que outros assistentes dessa área de história das ideias eram ou vieram a ser de Filosofia, como foi o caso do Fernando Catroga.
E assim fez o seu doutoramento com êxito sobre Teófilo Braga, parecendo seguir o caminho de Mário Soares, que, mais infeliz, em 1949 apresentara em Lisboa uma tese de licenciatura sobre o mesmo tema e fora reprovado. Tempos tenebrosos! Magalhães Godinho que prefaciou a edição do seu livro, saída um ano depois, bem desmascarou a injustiça, como fizera Soares, reclamando formalmente dessa reprovação.
Depois… foi a vida escolar no contexto de Abril, com muitas cumplicidades, encontrando-nos nós os dois e tantos outros queridos amigos no PS a fazer sessões de esclarecimento por esse distrito fora, à custa da nossa bolsa e pondo em perigo os nossos carros e nós próprios. Belos tempos! Saímos depois do partido em diferentes momentos e o Amadeu dizia muitas vezes que, se voltasse à política activa, seria com as mesmas armas de conquista do poder de tantos outros, alguns bem medíocres, que atingiram altos cargos, e não com o idealismo e até a ingenuidade de quem andou por ali a cumprir um dever de cidadania. Simples palavras…!
Bom professor e querido pelos alunos não foi tão bom investigador, apesar de ter depois também pertencido ao CEIS20, de onde também veio a sair por vontade própria, e de ter colaborado em várias publicações. Perdeu-se, no entanto, nas pequenas e grandes lutas e nas questões complicads das suas vidas conjugais. Escreveu bons textos de tudo, mesmo em literatura, mas mergulhou nas redes sociais que tiram a objectividade e a profundidade de análise, com perda de tempo, se se não se controlar a sua escrita. Digamos que se deixou derrotar a si próprio pelo seu feitio lutador e até por vezes inconveniente.
Apesar tudo, viveu… e morreu. Talvez sem glória, que nunca procurou. Lembrá-lo-ão os amigos e os familiares. O tempo se encarregará de o colocar no devido lugar que merece, neste mundo sem história, porque as guerras entretanto se encarregaram de matar a memória, em época de “cultura do espectáculo” e de desinformação com informação e, tantas vezes, com a ascensão de práticos que só sabem lutar — e nisso são perfeitos — pelo seu lugar, mesmo que não venham a ocupar nenhum lugar na história da democracia, por que tanto lutámos e continuamos a lutar.
Recordemos, pois, o Amadeu Carvalho Homem, tal como foi e não como gostaríamos que tivesse sido.30

