Homens e máquinas
Os carros sem condutor são a solução definitiva para a ausência de constrangimentos. Na realidade os automóveis sem condutor reger-se-ão por regras de educação e de código de estrada. O carro nunca estará sob efeito de tranquilizantes ou de álcool ou de estupefacientes. A raiva dos condutores é impossível, a ultrapassagem em traço contínuo impensável. Aliás, nada é pensado ou emotivo. A condução sem condutor é uma realidade para breve que abolirá as multas, a perda de carta, a presença de gente mal estacionada ou de tipos que sobem os passeios. Um carro educado não comete distúrbios. Automóveis sem condutor projectam a viagem e especificam a hora de saída para cumprir o horário desejado. De pressa não irão, desrespeitando o código, nunca o farão. Queres chegar a horas, levantas cedo, mas na corrida não irás. O mundo mais seguro e previsível, menos dependente de acéfalos aos gritos, de buzinas ululantes, de janelas abertas com dedos ordinários.
A previsibilidade e a coerência é uma característica da programação de regras e de códigos. Temos de nos habituar porque o futuro está para breve.
No caso humano as coisas são sempre menos previsíveis. Por exemplo, as árvores abatidas das ruas de Coimbra, só tiveram significado antes das eleições, porque depois de eleito o PS não houve correntes, não houve manifestações, não houve gritos de ofensa, nem almas amarradas.
As árvores são do PS, mesmo quando morrem! Aliás eu estou em crer que as árvores dançam e caem, ninguém as derruba. Já não há movimentos, nem petições. O PS tem a maioria absoluta das árvores e uma série de amigos do ambiente, companheiros de dança destas ramagens potentes exultam em gloriosas odes aos benefícios da queda. Se calhar agora as árvores estão doentes. Se calhar tombaram porque o maléfico José Manuel Silva não tinha ritmo nem cantava.
O encanto da incoerência humana tem destas subtilezas que as máquinas nunca. Bem, se um dia as máquinas aderirem ao PS atropelam as vozes dissonantes, ou buzinam quando passa o José Manuel. Recordo a árvore da Madeira que matou na queda 13 pessoas. Era uma Câmara do PS e o relatório fincou a importância do som no movimento das árvores que tombaram sobre os fiéis. Estávamos em Agosto de 2017 e a árvore do PS não matou os camaradas, escolheu os fiéis e os turistas curiosos. No tribunal falou-se da oscilação, da dança do carvalho gigante. As árvores do PS não se abatem, tropeçam porque dançam.

