Eu automobilista me confesso
Não há nada mais conveniente e confortável, mais fácil de utilizar e mais simplificador do dia-a-dia do que o nosso carro. Essa é que é a verdade. Abriga-nos da chuva, liberta-nos de horários, leva-nos as crianças e os canídeos, bem como as compras e toda a tralha.
O problema são os carros dos outros… e, enfado, os carros dos outros são em maior número.
Realmente o carro particular é o mais agradável meio de transporte para o seu proprietário e para quem lá vai dentro. Tem, no entanto, a característica de ser o pior meio de transporte para todos os restantes utilizadores do espaço público, sejam transeuntes sejam automobilistas de outros carros. O carro do «outro» é um empecilho para o «meu». Cria bichas de trânsito, atrapalha a circulação, ocupa o lugar de estacionamento em frente à loja onde eu queria ir.
Tem também o condão de atrapalhar a circulação dos transportes públicos, o que diminui ainda mais a sua atractividade. E de criar insegurança para os modos suaves de deslocação, com resultados trágicos por demasiadas vezes, «assegurando» um número de fatalidades que faria cair um governo caso fossem resultado de um bando de terroristas.
Realmente andar a pé no meio de carros não é agradável nem salutar. Será essa uma das razões pela qual os centros comerciais, sejam dentro-de-portas, sejam ao ar-livre, não querem carros a atrapalhar quem anda às compras. Nem nos corredores do Fórum, nem nas praças do Alma nem, atrevo-me a dizer, nas ruas da Baixa. Garantir acesso e transporte é necessário, mas ninguém estaciona à porta da Bertrand para ir comprar livros. Nem à porta da Casa do Castelo, diga-se, agora ou antes.
Assim como resolver? Podemos sempre olhar para outras cidades que abordaram o mesmo problema. Uma das soluções foi tornar os transportes públicos gratuitos. Não sendo má ideia não se tem mostrado eficaz para diminuir o número de carros com todas os seus inconvenientes. De facto aumenta o número de utilizadores dos transportes mais à custa de quem antes ia a pé ou de bicicleta. Quem ia de carro continua. Porque, repete-se, o carro é o mais confortável e conveniente meio para o próprio.
Por isso parece incontornável que, para tornar os transportes públicos e os meios suaves mais atractivos, tem-se que tornar o meio carro particular menos conveniente.
Isto pode – e na perspectiva pessoal, deve – ser feito com respeito pelas necessidades de residentes e com justiça social. Mais do que criar taxas de circulação ou benefícios a quem pode comprar carro eléctico, seria dificultar/impedir o trânsito de atravessamento pelo meio da cidade. Permitir que se chegue a quase todo o lado mas impedir que as ruas sirvam para atravessar de carro de uma ponta à outra.
Paralelamente, com menos tráfego de automóveis particulares, apostar muito na conveniência de transportes públicos. Mais, mais regulares, com horários interessantes e a cumprir, com condução respeitadora da «carga» humana, com integração de meios suaves (prever o transporte de bicicletas em certas linhas).
E, nas zonas onde se mantém a circulação automóvel, promover o uso a velocidades compatíveis com a presença de peões. Sobre esta matéria comparem a evolução da Avenida Lourenço Peixinho em Aveiro com o caos em que se mantém a Avenida Fernão de Magalhães em Coimbra.
Em jeito final, também já seria tempo de tirar o trânsito Norte-Sul do meio da cidade. Sim, do meio, a Avenida da Guarda Inglesa é meio da cidade, a meu ver.
PS. No texto passado cometi um crime «Lesa Majestade» em biologia. O nome científico da camarinha é Corema album e não Corema corema como desgraçadamente escrevi. Só espero que o itálico não desapareça na formatação do jornal…