Cinquenta mil
Dito assim não sabemos se é muito, se é pouco. Faltam as unidades, falta o período, falta a área, falta contexto portanto. Ora a unidade é «mortos por excesso de calor», o período é «Verão de 2026» e a área é «União Europeia mais o Reino Unido, a Noruega e a Suíça».
Assim já não parece pouco. Mas donde vêm esses números. De dois trabalhos científicos de análise do excesso de mortalidade. E atenção, são números cautelosos, os chamados conservadores, estimados «por baixo» segundo os autores.
Na verdade não é uma estimativa simples de fazer, como disseram na apresentação, na certidão de óbito não vem o calor como causa. Mas é. Assim foram estimados com base no excesso de mortalidade verificado em coincidência com as ondas de calor observadas. Foram avaliadas 845 cidades (Coimbra e Aveiro têm a atribuição de mais de cem óbitos em excesso estimados).
Mas nada se passa. Na verdade os governos resolveram as questões climáticas como parecem determinados a resolver a crise da habitação, fazendo desaparecer os protestos. Já repararam que, tirando o António Guterres, parece que já ninguém levanta o assunto?
A máquina repressiva e a censura dos os comentadores da minha geração funcionou, a indignação por uns miúdos impertinentes a atirarem pó verde. Uma geração que foi apodada de rasca e que invadia cantinas e partia caixas registadoras quando o preço da refeição subia 5 escudos…
E temos agora a nova postura dos negacionistas, já não é negar o facto, já não é negar a causa, já nem é negar a consequência, é o desmotivar fazendo crere que «já nada há a fazer».
Cinquenta mil pessoas, uma medalha que deve ser orgulhosamente usada ao peito também pelos que continuam a papaguear dislates como «Ah, há vinte anos diziam que o Terreiro do Paço ía ficar debaixo de água em vinte anos e nada, quais alterações climáticas qual quê» (baseado numa conversa real).

