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Energia cara, margens curtas, vidas (mais) apertadas: a vulnerabilidade

07 de abril de 2026 às 08 h45

Nos últimos anos, habituámo-nos a viver com uma volatilidade energética que deixou de ser exceção para se tornar regra. Sempre que o preço do petróleo ou do gás oscila, toda a economia treme: desde a indústria transformadora até ao pequeno comércio, passando pelos transportes, pela agricultura e, inevitavelmente, pelo bolso das famílias. Nada escapa. E, no entanto, continuamos a agir como se esta instabilidade fosse um fenómeno passageiro, quando na verdade é estrutural e profundamente perigoso.

Quando escrevi sobre este tema pela primeira vez, defendi que o Estado deveria assumir um papel mais ativo na contenção dos preços excessivos da energia, sobretudo quando estes resultam de choques externos alheios à realidade económica interna. Mantenho essa posição. Não se trata de exigir subsídios permanentes ou criar distorções artificiais, mas de reconhecer que, num país onde a maioria das empresas são PME com margens reduzidas, a volatilidade energética constitui um risco sistémico — e que, em momentos de crise, a gestão pública não pode encarar o lucro como parte da sua missão. A energia não é um luxo; é um bem essencial e deve ser tratada como tal.

Hoje, porém, o problema ganhou uma dimensão ainda mais inquietante. A dependência global de recursos energéticos controlados por lideranças que pouco se deixam guiar pelo bem comum — e muito menos pela estabilidade internacional — coloca-nos numa posição de vulnerabilidade que não pode ser ignorada. Basta um gesto imprevisível, uma decisão unilateral ou um conflito regional para que os mercados reajam de forma abrupta, arrastando consigo economias inteiras. É assustador perceber o quão expostos estamos a decisões tomadas a milhares de quilómetros, por dirigentes cuja motivação raramente passa pelo bem-estar coletivo.

E os sinais de alarme já não são teóricos. Há países onde a escassez deixou de ser uma possibilidade para se tornar realidade. Na Austrália, centenas de postos ficaram sem combustível durante vários dias, resultado de ruturas na distribuição e de uma corrida às bombas alimentada pelo medo. Em partes de África, como no Quénia e na Tanzânia, há racionamento e reservas que chegam apenas para algumas semanas. Mesmo na Europa, vários governos admitem que a pressão sobre os mercados internacionais está a reduzir margens de segurança e a obrigar a medidas de contenção. Estes episódios mostram que a fragilidade não é abstrata — é concreta, atual e global.

Portugal, apesar dos avanços nas renováveis, não está imune. Continuamos dependentes de combustíveis fósseis para setores essenciais, e a transição energética, embora necessária, não se faz ao ritmo que a realidade exige. As empresas enfrentam custos crescentes, dificuldade em planear investimentos e uma pressão competitiva que se agrava sempre que o preço da energia dispara. E quando as empresas sofrem, toda a economia local sofre com elas. A isto soma-se o risco adicional de perturbações no abastecimento internacional: basta uma disrupção prolongada nas rotas marítimas para que o país sinta o impacto, seja nos preços, seja na disponibilidade.

É por isso que este debate não pode continuar a ser adiado. Precisamos de uma estratégia nacional que reduza a exposição a choques externos, acelere a produção e armazenamento de energia limpa, e crie mecanismos de estabilização que protejam as empresas em momentos de crise. Precisamos, sobretudo, de reconhecer que a energia não é apenas um bem económico: é um instrumento de poder global. E enquanto continuarmos dependentes de quem usa esse poder sem qualquer preocupação humanitária, estaremos sempre a um passo de nova turbulência.

A economia portuguesa — e em particular as regiões onde a indústria é o motor do emprego — precisa e merece mais previsibilidade. As empresas precisam de condições para investir, inovar e competir. E os cidadãos têm direito a viver num país que não fica refém das decisões de líderes que veem o mundo como um tabuleiro de interesses pessoais. Não quanto não têm sequer poder para os eleger.

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