De onde és?
É uma das perguntas mais simples que fazemos quando conhecemos alguém. E, em Bruxelas, uma das mais difíceis de responder. Os números divulgados recentemente pelo instituto oficial de estatística belga vieram confirmar aquilo que qualquer habitante da capital já intuía: quase 80% da população da Região de Bruxelas tem origem estrangeira ou nacionalidade não belga. No conjunto do país, mais de um terço da população tem raízes noutro lugar. São cerca de 4,3 milhões de pessoas, entre cidadãos belgas de origem estrangeira e residentes de outras nacionalidades.
Basta entrar num café, num escritório ou num eléctrico para perceber que estes números têm rosto. No meu dia-a-dia, trabalho com pessoas que nasceram na Bélgica, em Itália, na Roménia, em Marrocos, na Grécia, na República Democrática do Congo ou em Portugal. Há quem fale três ou quatro línguas sem dar por isso. Há quem celebre o Natal e o Ramadão na mesma família. Há crianças que respondem aos pais numa língua e brincam com os amigos noutra.
Em Bruxelas, ser “estrangeiro” é quase uma condição partilhada. E talvez por isso a pergunta “de onde és?” raramente fique respondida apenas com uma só palavra. As identidades deixam de ser uma linha recta para passarem a ser uma soma. Lembro-me da cerimónia em que recebi a nacionalidade belga e da frase: “Não queremos que esqueçam de onde vêm; queremos que enriqueçam a Bélgica com a vossa bagagem.” É esta a identidade do país.
Vivemos numa época em que a imigração é tantas vezes discutida através de estatísticas, fronteiras ou discursos políticos. Mas, no quotidiano, ela tem outro nome. É o colega que traz um bolo típico do seu país para o escritório. É a vizinha que ensina uma receita da avó. É a criança que muda naturalmente de língua consoante quem lhe fala. É descobrir que o restaurante mais autêntico da rua serve comida de um país onde nunca pusemos os pés.
Há quem veja nesta diversidade um desafio. Eu vejo um privilégio. Porque Bruxelas – e os sítios por onde tenho passado – ensinaram-me que pertencer não significa deixar de ser quem somos. Significa acrescentar mais uma camada à nossa história. Ninguém precisa de escolher entre as suas origens e o seu presente. Porque as raízes não competem entre si, cruzam-se e entrelaçam-se.

