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Da Baixa ao Rio: pensar Coimbra como cidade inteira. Complexo Desportivo Universitário

02 de fevereiro de 2026 às 10 h24
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Há propostas que nascem do poder, outras do mercado, e algumas talvez as mais necessárias nascem da cidadania informada. Este texto parte desse último lugar: o de um cidadão e geógrafo que, sem a pretensão de apresentar projetos fechados ou soluções técnicas definitivas, procura contribuir para o debate público e para a capacidade coletiva de imaginar Coimbra como uma cidade integrada, coerente e pensada como um todo.

Nos artigos anteriores foi defendida a ideia do Fórum Coimbra Baixa como instrumento de reabilitação urbana, social e económica da Baixa histórica, articulando comércio, serviços, cultura, arqueologia e espaço público, num modelo de centralidade do século XXI. Esse exercício revelou algo fundamental: a Baixa não se reabilita isoladamente. Precisa de densidade humana, acessibilidade e relação funcional com o território envolvente.

É neste enquadramento que surge a necessidade de alargar o olhar para a frente ribeirinha, para a margem esquerda do Mondego e para os grandes equipamentos estruturantes da cidade.

A ponte como ideia, não apenas como travessia

A proposta da Ponte Pedonal Briosa, desenvolvida num artigo anterior, não se limita a resolver um problema de mobilidade. Ela constitui uma peça simbólica e funcional que liga pessoas, ideias e pertenças, evocando o património imaterial da Académica e da própria cidade. Esta ponte reforça a acessibilidade ao Fórum Coimbra Baixa, aumenta a sua viabilidade e transforma o rio num eixo de união — não numa fronteira.
Mas uma ponte só faz sentido se ligar dois lugares vivos.

Densidade para combater estigmas

A Baixa de Coimbra carece de densidade demográfica num raio próximo e funcional. A margem esquerda ribeirinha do Mondego tem capacidade para acolher essa densidade, de forma qualificada e socialmente diversa, contribuindo para diluir estigmas históricos e criar uma cidade mais equilibrada.
É neste contexto que se propõe a criação de duas novas urbanizações modernas:
Bairro da Guarda Inglesa, evocando a memória das Invasões Napoleónicas;
Bairro do Terreiro de Santa Clara, em homenagem ao antigo largo medieval e às monjas que ali acolheram doentes e desvalidos.
Estes bairros, localizados na margem esquerda, devem articular-se diretamente com a Baixa através da Ponte Pedonal Briosa, garantindo habitação para diferentes estratos sociais, estacionamento estruturante e novas dinâmicas urbanas.
A libertação dos terrenos atualmente ocupados pelo parque de autocarros dos SMTUC permitiria não só financiar parte da reabilitação da margem direita e da Baixa, como também reorganizar a mobilidade urbana, deslocando esta infraestrutura para um parque moderno que sirva igualmente a manutenção e o acolhimento de autocarros de turismo — tema que merecerá desenvolvimento em artigo próprio dedicado à mobilidade e ao turismo.

Universidade, território e racionalidade urbana

Outra peça fundamental deste puzzle urbano é a localização do complexo desportivo universitário. Defende-se aqui a sua implantação entre o Polo II e a Ponte da Portela, por várias razões convergentes:
Serve com maior proximidade a maioria da população universitária atual;
Localiza-se em terrenos classificados como zona verde;
Situa-se em área de proteção da estação de extração de águas para consumo humano, o que inibe futuras pressões urbanísticas;
Permite usos compatíveis, de baixa impermeabilização e elevado valor social.
Este complexo deve integrar um circuito de manutenção e desporto para todos, ao longo da margem do Mondego, acessível à população universitária e à crescente Urbanização da Quinta da Portela, que continua a expandir-se sem o correspondente reforço de infraestruturas de lazer.

Reabilitar o rio é reabilitar a cidade

A proposta ganha maior profundidade ao articular desporto, ambiente e memória coletiva. A reabilitação ecológica da margem do Mondego, hoje marcada por espécies invasoras, deve ser entendida como parte integrante do projeto urbano, associada ao desassoreamento da foz do rio Ceira e à criação de uma pequena praia fluvial na Portela de acesso apenas pedonal.
Esta praia não seria apenas um equipamento recreativo, mas um gesto de reconciliação com a memória da antiga praia da Portela, frequentada nas décadas de 1970, 80 e 90 por grande parte da população local, devolvendo o rio ao quotidiano das pessoas.

Uma visão integrada, não um conjunto de negócios

Todas estas propostas, Fórum Coimbra Baixa, ponte pedonal, novas urbanizações, complexo desportivo, reabilitação ribeirinha devem ser lidas como partes de uma visão integrada de cidade, onde o mercado existe, mas não dita sozinho a forma urbana; onde os grandes investimentos dialogam com o comércio local; onde a universidade deixa de ser um enclave e passa a ser território vivido.
Importa, por isso, deixar claro que as ilustrações e esquemas associados a estes artigos têm caráter meramente conceptual. Servem para suscitar debate, ilustrar ideias e estimular a imaginação coletiva, estando conscientes das simplificações, desproporções e incongruências inevitáveis neste tipo de exercício.
Concluir abrindo
Pensar Coimbra desta forma é um exercício de utopia informada, não no sentido do irrealizável, mas no sentido daquilo que ainda não foi tentado de forma integrada. Uma cidade não se constrói apenas com projetos isolados nem com oportunidades avulsas; constrói-se com visão, continuidade e coragem para imaginar.
Talvez o maior mérito destas propostas não seja a sua execução literal, mas a capacidade de devolver à cidade o direito de se pensar a si própria como um todo.
E isso, por si só, já é um bom ponto de partida.

Este artigo contou com a colaboração da plataforma CHAT GPT

Este artigo está incluído na série, com os respetivos links:
• A Baixa de Coimbra, o Mondego e a cidade que ainda podemos imaginar: Bairro da Guarda Inglesa e Bairro do Terreiro de Santa Clara. (Art. 9)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4375567235996169
• Ponte Pedonal Briosa
• Uma ligação estratégica para reforçar o Forum Coimbra Baixa e devolver centralidade à cidade. Art.º 8
• https://www.facebook.com/…/permalink/4366477463571813
• Forum Coimbra Baixa (Art.º 7)
• Um centro urbano de comércio, cultura e vida pública integrado na malha histórica.
• https://www.facebook.com/groups/3308040829415487
• Levantamento arqueológico da Baixa de Coimbra: um forte instrumento de reabilitação social. (Art. n.º6)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4355338461352380
• Um plano para a Baixa de Coimbra: cooperar para reabilitar. (Art n.º5)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4348623818690511
• Congresso.: Amar Coimbra é reabilitar a Baixa. (Art. n.º4)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4345819922304234
• A Baixa de Coimbra: Levantar valores para construir o futuro (Art. n.º3)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4341725462713680
• A Baixa de Coimbra: Um plano de reabilitação urbana, um plano de reabilitação social. (Art. n.º2)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4334784073407819
• Um plano para a Baixa de Coimbra do Séc. XXI, respeitando a memória! (Art. n.º1)
• https://www.facebook.com/…/permalink/4330814730471420
• Missão de Coimbra Progressista em tempos de oposição de governação.
• https://www.facebook.com/…/3308…/posts/4328499687369591/

Autoria de:

Hugo Duarte

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