Opinião: Consciência e espiritualidade
Definindo os âmbitos de espiritualidade
Quando entrei, lento e enlevado, na Mesquita de Santa Sofia, em 1986, ou na Igreja do Santo Sepulcro, em 1994, ou ainda no Templo Hindu Kapaleeshwarar, em 2001, fui arrebatado por estranhas ondas emocionais de difícil definição. Por segundos, senti-me um viajante por trilhos desconhecidos, quiçá, cósmicos, uma intrigante dimensão. De certa maneira, poder-se-ia dizer que fiquei “despersonalizado” e “desrealizado”, como consta da psicopatologia clássica. No momento, faltava-me linguagem e racionalidade. Talvez esvoaçante, o corpo. É provável que a mímica se tenha transformado e o coração acelerado. Na verdade, o impacto dos altares e do conjunto de simbologias, dispersas ou aglomeradas, conectados com as memórias e os afetos, ensopavam muito além da síndrome de Stendhal, a chamada embriaguez pelo belo. Isso sim, eu conhecera, esse frémito de basbaque espantado, quando me confrontei com a deslumbrante Vista-do-Rei pela primeira vez, em S. Miguel, Açores. Ao fundo, no silêncio quase absoluto, lá estavam as duas lagoas na cratera abatida do mega-vulcão das Sete Cidades, a verde e a azul. Que paz! Em ecos graduais, ao longe o galope de um cavalo com dois enormes tarros de leite às ilhargas. Eis-nos convidados a penetrar nos misteriosos domínios da consciência e da espiritualidade.
Num ousado exercício de simplificação, a consciência poderá ser valorizada a três níveis: vigília, lucidez e autoconsciência. O primeiro, reporta-se ao que chamamos estar acordado e reage a estímulos; o segundo, corresponde à integração numa experiência de si e do meio ambiente, com conteúdos e contextos inerentes; o terceiro, pressupõe uma avaliação crítica e juízos de ordem moral. Aqui está a ligação às neurociências. O juízo e o senso crítico têm a ver com o lobo frontal e o neocórtex do Homo sapiens. Onde está a moral. Os valores. Isso distingue-nos de outros animais. Mas, curiosamente, partilhamos 98% dos genes do macaco e 95% dos genes do rato… Tal didatismo sinótico, não consegue, todavia, explorar, de forma facilmente entendível, os estádios intermédios como sonambulismos, hipnoses, alucinações do pré e pós-sono, nirvanas, levitações, experiências de quási-morte, alucinações fora do designado campo da consciência, ou mesmo, episódios de transe do xamanismo. Para estas esferas do conhecimento vão ser precisas outras artes. Das situações anómalas do estado de consciência, talvez uma das mais conhecidas, pela sua bizarria e transtorno, para além do favoritismo de uma certa imprensa-cor-de-rosa ou, ainda, de programas sensacionalistas de televisão, deverá ser o caso da dissociação, ou seja, a alteração do estado de consciência provocado por alcalose respiratória, ou hiperventilação. Aquilo a que a sabedoria popular batizou de arfar continuadamente. O indivíduo “transforma-se”. Isto ocorre mais em personalidades hipersensíveis, sofridas e vulneráveis, que passaram por graves traumas na infância. Numa nota marginal, essa mesma capacidade neurofisiológica de dissociação acontece também em curandeiras procuradas por gente que acredita em crendices medievais, por exemplo, para certas situações de luto. Analogamente, o xamanismo, das culturas do Caribe ou do Pacífico Sul, revela como o estado de consciência pode ser alterado por drogas ilícitas. Veja-se o caso da psilocibina (cogumelos), mescalina (catos), mefredona (herbicida), ou ácido lisérgico (cravagem do centeio). Passemos agora a uma pergunta “incómoda”. E se o nosso cérebro produzir as suas próprias drogas? Ocitocina e dopamina, são dois bons exemplos, pela vinculação, pelo prazer. Então, o potencial de alteração do estado de consciência poderá estar dentro de nós! Tergiversando um pouco, mas ainda nos limites desta linha de pensamento, a doença que explica que há pessoas que dizem ter “saído” do corpo e conseguiram “ver-se” no bloco operatório a serem intervencionadas por uma equipa cirúrgica, poderá ser a epilepsia do lobo temporal. Estavam “a sonhar”, mas a convicção e a atribuição cultural são sempre muito mais poderosas do que qualquer outra coisa. Está claro que a meditação profunda (nirvana), com emissão de ondas alfa cerebrais, poderá levar a situações místico-religiosas difíceis de explicar. Estão descritas levitações entre os hindus, que carecem sempre de confirmação fidedigna. Nas experiências de quasi-morte há referências a uma sensação agradável de “túnel de luz” e “luta” contra o regresso à vida perante manobras de reanimação. É altamente provável que a anóxia gere algum conforto neurobiológico. Morrer deverá ser pacificador.
O Homem contemporâneo impregnou-se
de egocentrismo e narcisismo
Continuemos com algumas perguntas inevitáveis: a consciência mais próxima dos filósofos não deverá ser dife-rente do já exposto? E o que tem a consciência a ver com a espiritualidade? Quando o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração nazis, escreveu o celebrado “Man´s Search for Meaning”, referiu que Auschwitz era uma palavra terrífica que significava massacre, gás, crematório. Um milhão de mortos. As suas condições de sobrevivência, perante a crueldade à sua volta, estimularam-no a reflexões sobre a conceção existencial do corpo, da psique e do espírito. O Homem tem uma necessidade profunda de procurar o sentido da vida, tal como respirar: criar, vivenciar, interagir. Isso permite, inovar, crescer e amar. Carimbado com o número 119.104, uma “coisa” às ordens de qualquer despacho ou vozeirão de bota cardada, haveria de ressurgir como pessoa que jamais se sufocaria perante torturas de tições da consciência. Ele acreditava valer a pena partir dos ensinamentos do sofrer para a reabilitação do Homem, mesmo que a sua ciência perversa e malévola ainda se tenha mais mostrado do que é capaz em Hiroshima. Portanto, na mais desvairada tempestade é imprescindível agarrar o otimismo. Perscrutar o ténue raio de luz. Passar do padecimento ao reencontro, da culpa à mudança, do desespero ao renascimento. “Quem tem um porquê para viver, aguenta um qualquer como”, Friedrich Nietzsche (in “Turbulências”, Carlos Braz Saraiva, 1995, Audimprensa, Coimbra).
Quando o Dalai Lama, o líder espiritual tibetano, visitou Portugal pela primeira vez, em 2001, terá respondido a um jovem assombrado pelos fantasmas da inquietação, com esta limpidez: “Comece a dar!” Singela orientação, explícita e sintética, que vai ao encontro do cerne da teia em que se debate o Homem pós-moderno: o triunfo do egoísmo. O sábio conselho proferido pelo budista, obedece precisamente ao estímulo necessário à mudança interior. Quando a pessoa “dá”, ela apercebe-se de que para além de um “Eu” há também um “Outro”. Deste fluxo afetivo, deste “encontro” filosófico entre dois humanos, muito mais do que um mero contacto, recria-se a plateia social que a contempla e usualmente a dissuade a passar a um ato de desespero.
O Homem contemporâneo impregnou-se de egocentrismo e narcisismo. Inchou, majestático e vaidoso. Precisa de palco para evidenciar o seu instinto teatral. Se puder mostrar opulência ou for capa de revista, tanto melhor. Se tiver um séquito de bajuladores ou exibir o relógio de diamantes, que vitória! Ele entende ter direitos, mas não deveres. Percebe os demais como servidores ou instrumentos de utilidade social. Jamais conseguirá sentir as dores dos outros. Nunca estará disponível para calçar sapatos alheios. Caído na perigosa teia da tripla falácia da qual se faz alarde abertamente, de que tem que ser belo, poderoso e infalível, a irradiar uma grandiosa autoestima, sempre na crista da onda, de peito ao vento, apto para todas as ousadias e desafios, custe o que custar, à mínima agrura, esperneia e colapsa. Ninguém o lembrou que se anseia pelo arco-íris terá de que se preparar para a chuva. Não surpreenderá, pois, que se imponham as leis do mercado, do consumo e do espetáculo: “Tens que ter pelo ter; se não apareces, não existes”. E sempre, mesmo sempre, na penumbra, ou despudoradamente escancarado, lá está o “Deus Dinheiro!” No Ocidente há uma infantilização inebriante, talvez uma forma distorcida de ludibriar a angústia de existir, vapores esses que podem passar despercebidos. A partir da ilusão primitiva da omnipotência, pressuposto da persistência da criança-rei, o Homem pós-moderno permite-se decretar e definir limites não só da sua integridade, mas também daquilo que interpreta por sua própria dignidade (in “Dispersos e Escondidos”, Carlos Braz Saraiva, 2025, Ed. Damasceno, Coimbra).
Então, o que temos hoje? Tudo é efémero,
tudo é descartável
As sereias que maleficamente nos encantam levam-nos ao endeusamento do prazer imediato, à perpetuação do ideal ilusório do sempre esbelto e do espelho que fala tão só aquilo que queremos ouvir: “Be number one”. Portanto, eis o culto de um Eu egocêntrico e hedonista, fora da solidariedade coletiva. Então, o que temos hoje? Tudo é efémero, tudo é descartável. Também tudo é dicotómico: ou preto ou branco; ou tudo ou nada. Deixou de haver equilíbrios ou concórdias. A pressa e o tempo voraz esmagam tolerâncias e paciências. O frenesim da competitividade, custe o que custar, projeta-nos o horizonte mais curto, uma cegueira. Não permite o “descentrar-se” com vista à partilha e à troca. A saída do espelho. Esquecemo-nos da magnanimidade do perdão (in “Dispersos e Escondidos”, Carlos Braz Saraiva, 2025, Ed. Damasceno, Coimbra).
Já neste século, David Kissane, um psiquiatra e psico-oncologista australiano, que esteve em Coimbra para conferências e oficinas de trabalho, introduziria o conceito de desmoralização. Trata-se de um constructo (talvez não tão grave como o conceito de desesperança do americano Aaron Beck, da geração anterior), relacionado com um profundo desânimo e perda do sentido da vida. Aquele investigador desenvolveria modelos que incentivam o denominado “crescimento espiritual” através do sofrimento. Refere que a família deveria revelar-se como um importante baluarte na terapia e o médico assumir-se-ia como o equivalente de um “sacerdote moderno”. Dentro dos seus trabalhos, elaboraria uma escala de mensuração do constructo. Compreender-se-á que falar de espiritualidade aproxima-nos do sentimento de pertença e dos vínculos. Os etólogos há muito que haviam abordado estas temáticas. O austríaco Konrad Lorenz (Prémio Nobel da Medicina, 1973), nas suas observações de animais selvagens no seu “habitat” em meados do século XX, principalmente gansos e outras aves, designaria por laço aquilo nos une e obriga à cumplicidade e à cooperação. A bela dança dos grous é um hino ao enamoramento. Daí, a força da neurobiologia.
Convocadas, portanto, as neurociências, desde há décadas que se conhecem a existência de redes neurais do núcleo accumbens e da área tegmento-ventral, com libertação de dopamina e ocitocina, neurotransmissores implicados na motivação e no prazer. Também sabemos hoje o que são “neurónios em espelho” e a sua relevância para a espiritualidade. Descobertos nos anos 90 por investigadores da Universidade de Parma, em macacos Rhesus, rapidamente se concluiu que se aplicam ao Homo sapiens. Mais uma vez certas regiões do nosso fantástico lobo frontal a surpreender-nos. Tal como o lobo parietal. Reportável a células especializadas no compreender as expressões faciais e as emoções. Ou seja, a base neural do estímulo à socialização. Donde, a relação estreita com a empatia e a compaixão. Se este vai-e-vem cerebral está desregulado, ou não funciona mesmo, então, aproximamo-nos do espetro do autismo, da esquizofrenia, ou talvez da sociopatia ou outras doenças mentais. Neste momento, alguns dos organicistas mais obstinados embandeiram em arco: “afinal, já sabemos onde está o amor!” O cérebro pujante a explicar tudo! Arrepia?!
Em notas finais, convirá enfatizar que espiritualidade não quer dizer necessariamente religiosidade. Um ateu pode ser mais espiritual do que um crente. Os índios da Amazónia continuarão a precisar dos seus xamãs e da sua ayahuasca, rica em dimetiltriptamina, de potencial alucinogénio para intermediação com o sobrenatural. Esses povos veem o espiritual nos rios, nas florestas, nos rios, no vento. Tudo é espiritual.
Hoje sabe-se que a espiritualidade ajuda na saúde mental. Os principais focos residem nas doenças da ansiedade, incluindo as perturbações de stress pós-traumático, nas depressões e na dor crónica, designadamente em oncologia. A espiritualidade também se mostra uma ferramenta de aceitação do envelhecimento. O Papa Francisco referia-se à dor dos pobres e dos excluídos como fontes de inspiração para a caridade, a compaixão e a espiritualidade. Ou seja, poderosos lampejos de sabedoria sobre a condição humana.
Pode ler a opinião do psiquiatra Carlos Braz Saraiva na edição impressa e digital de hoje (13/02/2026) do DIÁRIO AS BEIRAS
