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Breve manual para destruir um país: “porque falham as nações”

10 de fevereiro de 2026 às 10 h15
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Há países que entram, quase silenciosamente, num processo de auto-destruição prolongada, sustentada e, em muitos casos, aparentemente irreversível. Não se trata de colapsos súbitos provocados por guerras ou catástrofes naturais, mas de uma erosão lenta e persistente das bases económicas, sociais e institucionais que tornam possível a vida em comum.

A Venezuela e Cuba são exemplos paradigmáticos deste fenómeno: sociedades que, ao longo de décadas, assistiram à deterioração contínua da sua economia, à perda de liberdade individual e à degradação do tecido social, sem que se tenha revelado uma capacidade interna consistente para inverter o rumo. O mais inquietante nestes casos não é apenas o empobrecimento material, mas a normalização do declínio, a aceitação coletiva de que “não há alternativa” e de que o futuro será inevitavelmente pior do que o passado.

O ponto de partida para compreender estes processos encontra-se numa ideia simples, mas poderosa, desenvolvida em Porque falham as nações, de Daron Acemoglu e James A. Robinson: os países não falham por causa da geografia, da cultura ou da falta de recursos naturais; falham por causa das instituições que o poder escolhe construir e preservar. As sociedades que prosperam tendem a assentar em instituições inclusivas, isto é, em regras políticas e económicas que distribuem poder de forma relativamente ampla, protegem a propriedade privada, garantem previsibilidade jurídica e criam incentivos para investir, inovar e trabalhar. Estas instituições não produzem milagres instantâneos, mas geram crescimento sustentado, mobilidade social e capacidade de adaptação ao longo do tempo.

Em contraste, os países que entram em trajetórias de declínio desestruturado, organizam-se em torno de instituições extrativas. Nestes sistemas, o Estado deixa de ser um árbitro e passa a ser um instrumento de extração de riqueza para uma elite restrita. Impostos elevados e arbitrários, regulação opaca, insegurança jurídica e uma economia dependente de favores substituem a iniciativa privada e a criação de valor. Ao mesmo tempo, constrói-se uma população estruturalmente dependente do Estado para tudo: rendimento, emprego, consumo e até sobrevivência. Esta dependência não é um efeito colateral; é parte integrante do modelo. Uma sociedade dependente é uma sociedade politicamente dócil, mais fácil de controlar e menos propensa a exigir reformas profundas.

Estas instituições extrativas não são um erro técnico nem um desvio ocasional. São, na maioria dos casos, o resultado de estratégias deliberadas de manutenção do poder. Grupos políticos, militares ou económicos capturam o Estado e moldam as regras do jogo para impedir a emergência de concorrência económica e política. Com o tempo, este processo tende a cristalizar-se em autocracias e ditaduras, onde a alternância de poder se torna impossível e qualquer tentativa de mudança é apresentada como uma ameaça à estabilidade ou à soberania nacional. A repressão, a censura e a instrumentalização da justiça passam a ser não exceções, mas ferramentas normais de governação.

O resultado é um círculo vicioso devastador. A concentração de poder reduz os incentivos à inovação e ao investimento; a estagnação económica reforça a dependência do Estado; essa dependência legitima mais controlo; e o controlo aprofunda ainda mais a fragilidade institucional. Ao fim de alguns anos ou décadas, o país encontra-se preso numa espiral negativa da qual é extremamente difícil sair, porque os próprios mecanismos que poderiam permitir a correção do rumo foram entretanto destruídos. Não há imprensa livre, não há tribunais independentes, não há economia dinâmica, não há confiança social. Há apenas sobrevivência.

Não é objetivo deste texto discutir o papel dos Estados Unidos ou de outras potências externas nos destinos da Venezuela ou de Cuba. Essa análise é complexa, controversa e merece um debate próprio. Mas é impossível ignorar um facto: quando um regime extrativo colapsa, sobretudo quando se trata de uma ditadura que empobreceu sistematicamente o seu povo, a queda do ditador pode, paradoxalmente, representar uma oportunidade histórica. Não porque resolva tudo de imediato, não resolve, mas porque remove um bloqueio estrutural à reconstrução institucional. É aqui que se pode aplicar, com ironia amarga, a velha máxima: vícios privados, públicas virtudes. A queda de um tirano pode nascer de motivações imperfeitas, mas produzir consequências coletivas positivas.

A lição central é incómoda, mas necessária: os países destroem-se a si próprios quando abdicam de instituições inclusivas em troca de promessas de proteção, igualdade artificial ou prosperidade administrada. Não é a falta de recursos que condena uma nação, mas a substituição da liberdade económica pela dependência, do Estado de direito pela arbitrariedade e da cidadania pela submissão. A história mostra que não há atalhos sustentáveis para o desenvolvimento e que os manuais para destruir um país são sempre escritos com as mesmas palavras, apenas adaptadas ao contexto de cada época.

Reconhecer estes padrões não é um exercício académico distante. É um aviso. Porque nenhum país está imune à tentação de trocar instituições inclusivas por soluções fáceis, nem à ilusão de que o declínio só acontece aos outros.

Autoria de:

Arnaldo Coelho

2 Comentários

  1. Ze da Gandara diz:

    Porque têm elites falhadas que nunca trabalharam… e que mesmo assim, tem a mania de que são a última Coca-Cola do deserto… Não é, oh Sôdôtôr?

  2. Laodiceia Amorim Weersma diz:

    O artigo desta terça-feira, de autoria do Prof. Dr. Arnaldo Coelho, apresenta, de fato, argumentos relevantes no campo da política macroeconômica das nações e nos convida a refletir sobre os riscos de uma condução inadequada da gestão pública — especialmente quando se relegam princípios basilares, como a democracia e a qualidade do investimento público, diante das dinâmicas industriais, da inovação e do bem-estar das populações.
    Todavia, sob meu olhar, creio que, ao abordar o caso das duas nações — Cuba e Venezuela —, o autor não considerou, de modo suficiente, fatores externos profundamente determinantes e, por vezes, devastadores: as políticas de embargo, traduzidas em severas restrições comerciais e financeiras, impostas por interesses geopolíticos de natureza imperial. Tais medidas, como se sabe, também contribuíram de forma significativa para o agravamento das crises que hoje se observam nesses países.

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