A Língua Portuguesa em Macau
Celebrou-se no passado mês de Maio, mais concretamente no dia 5 de Maio, o Dia Internacional da Língua Portuguesa. Pese embora seja um dia de relevância no panorama nacional, o seu peso e as suas celebrações na diáspora têm um grau de importância igualmente significativo. Para a diáspora, para a diplomacia internacional e para os emigrantes, a língua portuguesa vai para além do idioma de Camões, Fernando Pessoa e Saramago; é uma ponte e uma plataforma que tem tanto de importância e necessidade quanto de fragilidade.
Longe da terra natal, o emigrante português carrega resquícios de sotaques que denunciam a sua naturalidade, palavras emprestadas, pronúncias misturadas, anglicismos fruto do novo quotidiano e memórias linguísticas que resistem ao tempo e atravessam continentes.
Em Macau, o português resiste como língua oficial, a par do cantonês, contudo enfrenta o desafio natural da comunidade emigrante e da globalização. Para além do típico português expatriado, nesta região coabitam também os portugueses de Macau e os macaenses, que têm duas línguas maternas: o português e o cantonês. Esta dualidade é o reflexo vivo de uma identidade única, com uma cultura híbrida moldada e construída ao longo de décadas do encontro entre dois mundos. Os emigrantes portugueses em Macau comunicam no dia a dia de uma forma igualmente híbrida, porém natural. Se me permitem o desabafo despido de vergonha, eu sou capaz de misturar numa única frase português com inglês e cantonês, numa cadência fluida e instintiva: facilmente posso começar uma frase em português, continuar com um “let’s go” e terminar com um “fai ti fai ti” (rápido em cantonês). É uma linguagem prática, nascida da comunhão profunda com a região, a sua dinâmica e as suas pessoas, onde as línguas se entrelaçam sem esforço.
Um papel fundamental na preservação da língua portuguesa cabe à Escola Portuguesa de Macau (EPM). Atualmente, mais de 70% dos seus alunos não têm o português como língua materna, sendo a grande maioria falante nativa de cantonês. Esta realidade transforma a EPM num verdadeiro polo de disseminação da língua portuguesa no coração da Ásia. Ao receber crianças e jovens de origens tão diversas, a escola não só ensina a língua, como também transmite a cultura, a história e os valores lusófonos, garantindo que as novas gerações, sejam elas chinesas, macaenses, filipinas, etc., possam assegurar que o português continue presente nas gerações futuras, fortalecendo a sua presença no mundo.
Preservar o português em Macau é defender a diversidade cultural desta região de encontros e garantir que as novas gerações formadas na RAEM possam dialogar com aproximadamente trezentos milhões de falantes de português e ter acesso, não só à cultura lusófona, mas também à variadíssima e rica cultura da CPLP.

