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A inteligência do cinismo

14 de setembro de 2026 às 15 h05

É extraordinário o espetáculo a que assistimos. Os mesmos líderes das gigantes tecnológicas que há anos aceleram, sem travões, a corrida à Inteligência Artificial aparecem agora, de tempos a tempos, a pedir ao mundo que abrande. Falam de riscos existenciais, de sistemas imprevisíveis, de perda de controlo. Pedem prudência aos governos e responsabilidade à sociedade.

Não podemos aceitar este jogo. Durante anos, a lógica foi simples: desenvolver primeiro, conquistar mercados depois e discutir as consequências quando fosse demasiado tarde. Agora que a dimensão dos riscos começa a ser evidente, e que nem os próprios criadores parecem capazes de antecipar plenamente o que estão a construir, descobrem subitamente a importância da regulação.

Isto não é liderança. É cinismo. Profundo!

A inovação não pode ser uma corrida sem regras em que os lucros são privados e os riscos ficam para a sociedade. Nem podemos aceitar que a criatividade humana seja tratada como combustível descartável para alimentar máquinas cada vez mais poderosas.

Nunca como hoje precisámos tanto da cultura. Da música, da literatura, do cinema, da pintura, da dança. Daquilo que nasce da experiência, da emoção, da memória, da imperfeição e da extraordinária capacidade humana de transformar a vida em significado.

A Inteligência Artificial pode ampliar a criatividade. Não pode apropriar-se dela. Pode ser ferramenta. Não pode tornar-se dona.

Há uma fronteira que nenhuma tecnologia deveria ultrapassar: o momento em que deixamos de proteger aquilo que nos torna humanos. E essa fronteira não pode ser definida pelos mesmos que passaram anos a correr para a ultrapassar.

Uma sociedade verdadeiramente inteligente não é aquela que consegue criar máquinas cada vez mais poderosas. É aquela que sabe preservar, perante elas, aquilo que nenhuma máquina deveria poder substituir: a humanidade.

E esperemos que já não seja tarde!..

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