Fogo que arde sem se ver
Há poucas semanas escrevi neste espaço sobre os bombeiros de Bruxelas e sobre a diferença entre os incêndios que conhecemos em Portugal e aqueles que os bombeiros enfrentam na Bélgica. Escrevi isso pouco antes de a Bélgica me tirar a razão. Desde 14 de Agosto, as Hautes Fagnes, no leste do país, foram atingidas pelo maior incêndio da história contemporânea da Bélgica. Mais de 3.000 hectares de floresta, e zonas húmidas, com arbustos e vegetação rasteira, foram afectadas pelas chamas, numa área que é uma das paisagens naturais mais emblemáticas do país.
As imagens eram impressionantes, mas havia qualquer coisa naquele incêndio que o tornava ainda mais estranho para quem, como eu, cresceu a ver os grandes fogos portugueses. Aqui, o fogo não se limitava às árvores e à vegetação que vemos. Nas zonas de turfa, continuava a arder por baixo dos nossos pés. As imagens na TV mostravam uma paisagem de vegetação rasteira, sem fogo, mas fumo a sair do solo.
A turfa é formada por matéria vegetal acumulada durante milhares de anos. Quando seca e entra em combustão, pode continuar a arder em profundidade, mesmo quando à superfície parece que o incêndio está controlado. O fogo pode avançar lentamente por baixo do solo e reaparecer mais longe, dando origem ao que os especialistas chamam de “fogos zombie”. Foi precisamente isso que aconteceu nas Hautes Fagnes: depois de o incêndio de superfície ser considerado controlado, o fogo continua vivo debaixo da terra, tendo mesmo sido registados alguns reacendimentos a 7 de Setembro.
Durante muito tempo, a Bélgica olhou para os grandes fogos florestais como um problema dos países do sul da Europa, países habituados a ver o verão transformar paisagens inteiras em cinzas. As Hautes Fagnes vieram lembrar que o mapa dos incêndios está a mudar e que os territórios que pareciam estar fora desse risco podem deixar de estar.
Há poucas semanas escrevia que, na Bélgica, os bombeiros eram sobretudo uma força urbana e que os grandes incêndios florestais eram excepcionais. Hoje, olhando para as Hautes Fagnes, talvez tenha de acrescentar uma frase àquela crónica: há coisas que continuam a ser excepcionais até deixarem de o ser.
