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Oh as casas as casas as casas

07 de novembro de 2026 às 08 h45

Não sabem nada de casas os construtores, os senhorios e os procuradores, afirma Ruy Belo. E, muito menos, os legisladores.

De casas sabem os que as habitam. Só os que as habitam sabem dos seus recantos, das suas sombras, dos seus lugares secretos, dos seus quartos escuros.

As casas não são tocas, covis, aquartelamentos ou acampamentos. Pois as casas têm uma natureza ontológica: são parte e condição do nosso Ser.

Só as casas, continua Ruy Belo, autor das poéticas de O problema da habitação, explicam que exista uma palavra como intimidade. E as ruas onde passamos pelos outros.

Sem casas não há possibilidade de enraizamento. De encontro. De repouso. De amor.

De liberdade a sério, como canta Sérgio Godinho, em Liberdade, definição definitiva das condições de um Estado Social a sério: “Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação.”

Não leem poesia os nossos legisladores e governantes.

Se os lessem, não definiriam políticas públicas de conversão da habitação social em favelas periféricas para confinamento dos abandonados pela fortuna.

Não inflacionariam de modo estratosférico o valor das casas pela oferta aos abonados do mundo de nacionalidade em troca de aquisições seletas.

Não expulsariam dos bairros populares os populares desses bairros, mudando casas em alojamentos turísticos, para maior glória e lucro dos fundos de investimento e para insano louvor do contributo do turismo de passagem – e todo o turista é um inabitante de passagem – para o misterioso PIB.

Não definiriam políticas fiscais de ficção de rendimento para quem só alcança viver em habitação arrendada ou adquirida com crédito hipotecário, desconsiderando quase integralmente, nas deduções fiscais de IRS, o valor das rendas e prestações suportadas.

Não tributariam mais pesadamente a propriedade de imóveis que a propriedade da riqueza mobiliária e financeira. E por aí fora.

Não sabem nada de casas os governantes.

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