Não quero…
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero saber quem são aquelas pessoas. Que idade têm, o que fazem, onde trabalham, quanto ganham. Talvez descubramos que o problema não está apenas no preço das casas, mas sobretudo nos salários que não chegam para lhes abrir a porta. E, se for assim, os interlocutores são outros, certo?
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero conhecer os problemas concretos que os levaram até ali. Uma renda incomportável? Um contrato precário? Um despejo iminente? A impossibilidade de sair de casa dos pais? A problemas diferentes correspondem soluções diferentes.
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero saber com que políticas públicas discordam. Quais conhecem, quais experimentaram, quais os deixaram de fora. O que deve mudar: os critérios de acesso, os montantes dos apoios, os prazos, a oferta de habitação? O que sabem afinal sobre o o problema?
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero ouvir propostas. O que consideram que poderia ser feito e ainda não foi experimentado? Com que recursos, em que prazo e com que prioridade? O que ajudaria já e o que precisa de tempo? Uma reivindicação obriga a explicações para lá das palavras de ordem.
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero saber com quem gostariam de falar. Com o Governo, com as câmaras, com os empregadores, com os proprietários? E como? Numa reunião, num grupo de trabalho, num processo de negociação ? Quem se sentaria à mesa e com que mandato?
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero perceber em que consiste o direito à manifestação. Porque se pode permanecer numa praça, mas não montar uma tenda? Que regras distinguem uma manifestação de um acampamento? Quem decide, com que fundamento e segundo que critérios? Quero uma explicação que permita compreender os direitos de quem protesta e os limites da intervenção policial.
Não quero ver braços de ferro estéreis entre a polícia e os manifestantes.
Quero que a cobertura mediática me ajude a compreender o que está em causa.
Algum senhor jornalista pode fazê-lo, por favor?

