O desfasamento entre a perceção e a realidade na política moderna
Vivemos num tempo em que a política já não se disputa apenas no terreno das ideias, mas também — e cada vez mais — no campo da perceção. Aquilo que os cidadãos acreditam sobre a realidade social e política nem sempre coincide com os factos ou com os dados disponíveis. Este crescente desfasamento entre perceção e realidade tornou-se uma das características mais marcantes do debate público contemporâneo, colocando desafios profundos à qualidade da democracia.
A transformação digital alterou profundamente a forma como a informação é produzida, distribuída e consumida. As redes sociais deixaram de ser simples meios de comunicação para se transformarem em sofisticados sistemas de seleção da informação, assentes em algoritmos que privilegiam conteúdos capazes de gerar maior envolvimento emocional. De acordo com Reuters Institute Digital News Report, as redes sociais e as plataformas de vídeo são hoje uma das principais portas de entrada para o consumo de notícias em muitos países, enquanto cresce a preocupação dos cidadãos com a desinformação e com a dificuldade em distinguir conteúdos credíveis de informação manipulada.
Esta dinâmica é reforçada pela chamada economia da atenção, conceito introduzido pelo economista americano e Prémio Nobel Herbert A. Simon, que já em 1971 advertia que “uma abundância de informação cria uma escassez de atenção”. Numa sociedade onde a informação é praticamente ilimitada, a atenção humana tornou-se num recurso valioso, que influencia a forma de agir dos agentes económico e políticos.
A psicologia cognitiva ajuda igualmente a compreender este fenómeno. Os trabalhos pioneiros de Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que os indivíduos recorrem frequentemente a atalhos mentais (heurísticas) que influenciam a forma como interpretam a realidade. Um desses mecanismos é o chamado viés de confirmação (confirmation bias), através do qual tendemos a valorizar informação que confirma as nossas convicções e a desvalorizar aquela que as contraria, criando-se assim as chamadas “bolhas informativas”.
Num espaço digital saturado de informação, não é necessariamente o conteúdo mais rigoroso que tem maior visibilidade, mas sim aquele que desperta emoções mais intensas. O medo, a indignação e a revolta transformaram-se em poderosos instrumentos de mobilização política e mediática, favorecendo a simplificação de problemas complexos e a difusão de narrativas “à la carte”, concebidas para consumo imediato, ainda que frequentemente incompletas ou distorcidas. É neste contexto que a demagogia e o populismo encontram terreno particularmente fértil.
A desinformação deixou, por isso, de constituir um fenómeno marginal. Em muitos casos, é utilizada de forma deliberada para influenciar perceções e condicionar comportamentos políticos. O caso da Cambridge Analytica, que envolveu a utilização indevida de dados pessoais de cerca de 87 milhões de utilizadores do Facebook, tornou-se um exemplo paradigmático de como a informação digital pode ser utilizada para construir mensagens políticas direcionadas, explorando vulnerabilidades psicológicas e reforçando preconceitos existentes.
Neste cenário, o problema já não se limita à divergência de opiniões, mas estende-se à própria divergência sobre factos. O mesmo conjunto de dados pode ser interpretado de maneiras completamente diferentes, dependendo do enquadramento ideológico de quem os analisa. Esta situação fragiliza o espaço comum de debate público, que é essencial ao funcionamento saudável da democracia, na medida em que as decisões coletivas dependem de uma base mínima de realidade partilhada.
Não surpreende, por isso, que organizações internacionais, como a OCDE, tenham vindo a alertar para este fenómeno, considerando atualmente a desinformação como uma das principais ameaças à confiança nas instituições democráticas, sublinhando que compromete a qualidade do debate público, enfraquece a coesão social e dificulta a formulação de políticas públicas eficazes. Esta tendência encontra igualmente eco em diversos estudos nacionais e internacionais, de que são exemplos os estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do Eurobarómetro e da OCDE, que mostram uma erosão gradual da confiança dos portugueses nos governos, nos partidos políticos e, em menor grau, mas ainda, assim significativo, nos meios de comunicação social, sendo que os partidos políticos são a instituição em que os portugueses menos confiam (20,9%).
A realidade demonstra-nos que a abundância de informação não produziu automaticamente cidadãos mais esclarecidos. Antes pelo contrário, tornou indispensáveis novas competências de literacia mediática, pensamento crítico e verificação de factos. Exige igualmente uma maior responsabilização das grandes plataformas tecnológicas pelo modo como os seus algoritmos condicionam a circulação da informação. Enquanto a atenção continuar a ser a principal moeda da economia digital, persistirá um forte incentivo para privilegiar aquilo que desperta emoções em detrimento daquilo que aproxima os cidadãos da realidade.
A democracia vive do pluralismo de opiniões, mas depende também de uma realidade factual minimamente partilhada. Sem esse espaço comum, o debate público transforma-se numa disputa entre perceções inconciliáveis, onde a emoção se sobrepõe à razão e a narrativa prevalece sobre a evidência. Recuperar esse espaço comum é, provavelmente, um dos maiores desafios das democracias no século XXI.

