O rasto do caracol
Podíamos chamar a pegada, denominar como “a marca”, designar por história mas era sempre a impressão da nossa passagem no local. Entrar num lugar e não deixar sinal da nossa presença é quase impossível, ou pelos consumos, ou pelo lixo, ou pela desarrumação, ou pelo cheiro. Somos um ser que marca o território mesmo sem dar conta.
Dificilmente deixamos num espaço tudo intocável. Entrando num carro mudamos a posição do condutor e os retrovisores. Sentando à mesa corrigimos os talheres ou os copos. Alugando uma casa transformamos o sossego dos móveis. Na cozinha, o bulício altera o lugar dos talheres, das panelas, a limpeza dos objectos, o conteúdo dos armários. O rasto é a presença das pessoas na vida.
O rasto, como tudo o resto, pode ser adequado, ou excêntrico, ou excessivo. O filho que desarruma o quarto, a sala e a cozinha produz ansiedade no quotidiano. A esposa que acumula até ocupar cada recanto, condiciona a vida comum. O marido que leva a roupa suja para o trabalho, que descuida os sapatos no espaço comum, que interfere com o seu odor e suor perturba a higiene comum, cansa e exaure por constrangimento.
Os outros que vivem conosco, são os que se apercebem do rasto do caracol. O caracol segue o seu caminho impávido porque não sabe do rasto, não sabe da sua pegada pegajosa, da violência da sua presença. Estar presente é marcar, tatuar, perfumar a vida alheia.
Quando existimos somos entre os outros e nunca apenas nós. Este é o problema mais contemporâneo que fervilha. As pessoas decidiram ter um rasto colorido, marcar de forma contundente, desenhar seus passos nas areias inexploradas, no cimento fresco dos passeios.
São sozinhas na sua importância e atiram-se para as passadeiras sem cuidar dos outros, elevam os seus aparelhos sonoros sem ver se incomodam, buzinam por futilidades absurdas, expõem-se sem proteger do seu estatuto na sociedade, não se preocupam se perturbam, se chocam, se desconcertam.
Assim a sociedade é uma orquestra que toca cada um sua música num rasto ruído que nos leva à ditadura. Nós só somos eu dentro do contexto dos outros, eles. Reduziu-se a esfregona cerimónia, desligou-se o aspirador, partiu-se a vassoura, elas que continham o rasto. Educação, cerimónia, respeito, contenção pública permitem muito mais do que se pensa e abrem espaço à transgressão, que se for diária é rotina.
