Pelos cafés de Coimbra
Há cidades que se contam pelos monumentos. Coimbra conta-se também pelos seus cafés.
Durante décadas, foram muito mais do que locais onde se bebia café. Eram espaços de encontro, de debate, de criação e de convivência. À volta de uma mesa discutia-se literatura, política, música, futebol ou simplesmente a vida. Havia tempo para ouvir, discordar e argumentar. Hoje, esse tempo parece escassear.
Os cafés mudaram porque a vida mudou. A velocidade do quotidiano substituiu a permanência. O telemóvel ocupou o lugar da conversa, o café passou a beber-se quase sempre de passagem e as tertúlias tornaram-se uma raridade. Não se trata de condenar a modernidade ela é inevitável, mas de reconhecer que, com estas mudanças, Coimbra perdeu parte da sua vida pública.
Os antigos cafés desempenharam um papel decisivo na construção da identidade cultural da cidade. Antes das redes sociais, era ali que as ideias circulavam. Cruzavam-se estudantes, professores, escritores, músicos, jornalistas e cidadãos anónimos, todos unidos pelo gosto da conversa. A cidade pensava-se também nos cafés.
A Brasileira foi um desses lugares desde a sua fundação em 1921. Pelas suas mesas passaram Miguel Torga, Vitorino Nemésio, José Afonso, António Portugal, Mário Silva e tantos outros que marcaram a cultura portuguesa. O seu encerramento, em 1995, representou o fim de uma época.
As sucessivas tentativas de lhe devolver vida ao espaço, conciliando a tradição com novos conceitos merecem ser acompanhadas com expectativa mostram que há espaços cuja importância ultrapassa largamente a atividade comercial. Recuperar “A Brasileira” é preservar uma parte da memória cultural de Coimbra.
O mesmo acontece com o Café Santa Cruz. Instalado num edifício carregado de história, desde 1923, continua a ser um dos símbolos da cidade. A beleza da sua arquitetura, os vitrais, o ambiente e a programação cultural fazem dele um raro exemplo de um café que continua a cumprir a sua vocação de espaço de encontro. Ali ainda se pode assistir a uma apresentação de um livro, ouvir Fado de Coimbra ou simplesmente conversar sem pressa, enquanto se saboreia um “Crúzio”.
Também o Mandarim permanece na memória de muitos conimbricenses. O seu desaparecimento, substituído por uma cadeia internacional de fast-food, e depois um bar foi mais do que uma mudança de atividade comercial. Foi um sinal dos novos tempos, em que a uniformização dos espaços tende a apagar aquilo que torna cada cidade única. Felizmente, permanece o magnífico painel de azulejos de Vasco Berardo, recentemente classificado como Monumento de Interesse Municipal, lembrando que a memória resiste mesmo quando os lugares desaparecem.
Poderíamos acrescentar muitos outros nomes: Montanha, Arcádia, Nicola, Avenida, Ritz, Pigalli, Académico, Tropical ou os cafés de bairro, como o Bossanova, Piolho, Tamoeiro, Samambaia ou Mónaco. Todos fazem parte de uma Coimbra que não existe apenas nas fotografias, mas também nas recordações de quem a viveu.
A questão, porém, não é viver da nostalgia. As cidades têm de evoluir e os cafés também. O verdadeiro desafio consiste em não perder aquilo que lhes dava sentido: serem lugares de encontro, de cultura e de cidadania. Uma cidade faz-se tanto dos seus edifícios como dos espaços onde as pessoas se encontram para conversar e trocar ideias.
Coimbra continua a orgulhar-se da sua Universidade, do seu património e da sua história. Talvez seja tempo de reconhecer que os seus cafés também fazem parte desse legado. Porque preservar a memória dos cafés não é apenas homenagear o passado, é defender uma forma de viver a cidade que continua a fazer falta no presente.

