O verão que não cabe nas casas
Nas últimas duas semanas, Bruxelas deixou de parecer Bruxelas. Durante vários dias consecutivos, as temperaturas ultrapassaram os 30 graus e nalguns locais do país chegaram aos 39 ºC. O Instituto Real Meteorológico emitiu alertas laranja para praticamente todo o território, algo ainda pouco comum, e vários recordes de temperatura foram batidos. Mas o problema não estava apenas na rua. Estava dentro de casa e nos escritórios.
Quando me mudei para a Bélgica, aprendi rapidamente a apreciar as paredes grossas, as janelas duplas (ou triplas) e o excelente isolamento das habitações. No inverno, fazem toda a diferença. Até chegar o verão. Ou melhor, até chegar este verão.
As mesmas paredes que conservam tão bem o calor durante o inverno transformam-se, durante uma onda de calor, numa espécie de estufa. Absorvem o calor durante o dia e devolvem-no lentamente durante a noite. Dormir torna-se um exercício de resistência. Abrimos todas as janelas à procura de uma corrente de ar mas, naqueles dias, nem uma brisa soprou.
“És de Portugal, isto para ti deve ser fácil” – ouvi esta frase mais vezes do que gostaria e já começo a responder com ironia: “Mas em Portugal já chegou uma coisa chamada ar condicionado”. Isto porque aqui, muitos escritórios e estabelecimentos comerciais não estão equipados. Em Portugal, quando faz muito calor, sabemos mais ou menos o que fazer. As casas têm estores, muitos edifícios têm ar condicionado. Na Bélgica, o calor continua a ser um visitante inesperado, e quase não há estores para fechar. Há apenas cortinas e janelas abertas durante a madrugada.
Durante décadas, o calor extremo foi uma excepção. Hoje, começa a deixar de o ser. Aqui, as cidades, as casas e até os hábitos foram pensados para conservar calor, não para o dissipar. Aliás, as casas continuam preparadas para o inverno. O clima é que já não.

