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O verão que não cabe nas casas

02 de julho de 2026 às 10 h15

Nas últimas duas semanas, Bruxelas deixou de parecer Bruxelas. Durante vários dias consecutivos, as temperaturas ultrapassaram os 30 graus e nalguns locais do país chegaram aos 39 ºC. O Instituto Real Meteorológico emitiu alertas laranja para praticamente todo o território, algo ainda pouco comum, e vários recordes de temperatura foram batidos. Mas o problema não estava apenas na rua. Estava dentro de casa e nos escritórios.

Quando me mudei para a Bélgica, aprendi rapidamente a apreciar as paredes grossas, as janelas duplas (ou triplas) e o excelente isolamento das habitações. No inverno, fazem toda a diferença. Até chegar o verão. Ou melhor, até chegar este verão.

As mesmas paredes que conservam tão bem o calor durante o inverno transformam-se, durante uma onda de calor, numa espécie de estufa. Absorvem o calor durante o dia e devolvem-no lentamente durante a noite. Dormir torna-se um exercício de resistência. Abrimos todas as janelas à procura de uma corrente de ar mas, naqueles dias, nem uma brisa soprou.

“És de Portugal, isto para ti deve ser fácil” – ouvi esta frase mais vezes do que gostaria e já começo a responder com ironia: “Mas em Portugal já chegou uma coisa chamada ar condicionado”. Isto porque aqui, muitos escritórios e estabelecimentos comerciais não estão equipados. Em Portugal, quando faz muito calor, sabemos mais ou menos o que fazer. As casas têm estores, muitos edifícios têm ar condicionado. Na Bélgica, o calor continua a ser um visitante inesperado, e quase não há estores para fechar. Há apenas cortinas e janelas abertas durante a madrugada.

Durante décadas, o calor extremo foi uma excepção. Hoje, começa a deixar de o ser. Aqui, as cidades, as casas e até os hábitos foram pensados para conservar calor, não para o dissipar. Aliás, as casas continuam preparadas para o inverno. O clima é que já não.

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