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A IA a (re)inventar-se e os exames vigiados no passado

25 de junho de 2026 às 10 h45

Em plena fase de realização de exames nacionais para acesso ao Ensino Superior, deparamo-nos com 2 cenários a velocidades muito distintas, como se um deles decorresse em modo acelerado e o outro estivesse em semi-câmara lenta: quem estabelece regras vs quem as quebra. Diversas notícias têm surgido sobre a preocupação do uso de tecnologia, em particular da Inteligência Artificial durante a realização das provas. “Dos auscultadores aos… óculos inteligentes: eis como se agrava a fraude de copiar em exames: Situação acontece em vários países” (portal Sic Radical, às 12:00 de 24 de junho, hoje), onde se relatam as possibilidades dos óculos inteligentes, equipados com ligação à Internet, câmara, microfone, auscultadores permitem facilmente fotografar questões e indicar a resposta (sem qualquer uso os equipamentos mais tradicionais como telemóveis ou smartwatches), facilitando bastante o acesso a uma resposta correta. Poderíamos pensar que estes equipamentos são caros, que quem está a vigiar as provas vai compreender que são óculos que se distinguem dos outros ou que isso seria de fácil resolução se o acesso à Internet fosse bloqueado nas salas onde se realizam as provas. Porém: os óculos parecem bastante comuns, nenhum de nós tem ou teve qualquer tipo de sensibilização para os detetar e é proibido bloquear o sinal numa escola. Já quanto ao preço, se estiver em causa o acesso a uma Universidade/curso onde o índice de força é superior a 10 (rácio entre número de candidatos e vagas disponíveis) a ética talvez seja interpretada como “discutível”.

Mesmo antes de serem iniciados os exames nacionais de 2026, o Expresso noticiava que os “métodos de vigilância do século passado podem ser um problema” sendo algumas estratégias ineficientes e desadequadas às exigências indicadas por Filinto Mota, Presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. No artigo “Diretores escolares pedem novas técnicas de vigilância nos exames para detetar tecnologias usadas por alunos” (Diário de Notícias, 19 de junho), o tema é novamente referido, técnicas obsoletas de vigilância não compagináveis com as possibilidades existentes hoje. Os wearables acessíveis e de utilização corrente como smartwatches, “brincos com sistemas de comunicação, canetas inteligentes com acesso à inteligência artificial e até óculos inteligentes“, apenas comparáveis a técnicas de espionagem (007 e Missão impossível: a realidade por aqui já superou a ficção) são relativamente recentes e regras, legislação e políticas não os acompanharam.

Este fenómeno não é de hoje: sempre houve relatos de cópias e comportamentos fraudulentos mais ou menos criativos que conduziam a anulação de provas e/ou expulsão de estudantes. Eram, porém, números baixos, que apenas ocasionalmente surgiam em público (até por alguma vergonha alheia), e os sistemas algo arcaicos e falíveis.

Os docentes ainda acreditavam que obrigando os estudantes a deixar os seus pertences – incluindo wearables – à entrada da sala de exame, poderiam garantir que cada um estaria a realizar o exame sozinho. Acontece que levar um 2.º ou um 3.º telemóvel para a sala passou a ser algo banal para quem pratica estes atos e o mesmo com outros dispositivos. A IA avançou para aplicações simples de utilizar que devolvem respostas quase sempre certas.

Percebe-se a preocupação com a vantagem ilícita que o uso destes sistemas traz no momento da candidatura ao Ensino Superior. Também me preocupa o que farão estes candidatos enquanto Estudantes do Ensino Superior, que interesse terão nas aprendizagens, como realizarão as avaliações, como evoluirão e como se comportarão nas empresas e como cidadãos. Afinal, que ética podemos esperar quando este é o ponto de partida?

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