Era uma vez
Víctor Erice nasceu a 30 de junho de 1940. A passar a marca dos 86 anos, o cineasta espanhol continua a ser lembrado pelo clássico O Espírito da Colmeia.
Era uma vez um filme que veio num camião até ao planalto espanhol. É o mais próximo que os adultos têm do passado perdido, e por isso a correria é imediata. Como sempre na frente, porque o físico lhes dá primazia sobre os demais, as crianças, numa fila como uma cobra cheia de fome, celebram a chegada daquele ser estranho. Mais fitas fílmicas do que as que sabem contar decoram as traseiras do camião. Quem as traz garante: é o filme mais bonito do mundo.
O preço da entrada para os adultos é de uma peseta, para as crianças apenas dois reais. A venda é organizada por uma das senhoras da aldeia depois do apito que deu início à festividade. As cadeiras são trazidas por cada um, quais abelhinhas a transportar o néctar até à colmeia coletiva.
Os adultos esperam que este filme seja melhor do que o anterior, preocupação de imediato apaziguada pelo transportador da testemunha de outros mundos
Os mais novos, ofuscados pelo que virá a seguir, não se lembram de nada disso, a ânsia que lhes reside os espíritos como um nevoeiro ladeiro que só lhes permite mirar adiante. E assim vão aprendendo a viver.
Já do outro lado da existência, o filme é anunciado, num castelhano dobrado, por um senhor de meia idade que fura a cortina do espetáculo para alertar os espectadores sobre o que aí vem. É promessa imediata contar a história do homem que tentou ser Deus ao criar outro ser humano, roubando-lhe a missão que só a ele pertencerá. A moral é o maior fantasma a pairar na sala, mas cada um ficará no que lhe parece: as películas não foram feitas para ser comentadas, mas antes para serem sentidas. Para mais, esta será uma história sobre os grandes mistérios da criação: a vida e a morte.
Perfiladas na fila da frente, sem arriscar o pestanejar que lhes roubaria o tão esperado momento, as crianças ainda não sabem o que magoa os homens. Nem tampouco desconfiam do que é a vida, do que esta lhes reserva. Portanto ainda nada saberão sobre o seu fim. Não têm noção de que tudo um dia termina, e por isso não precisam de medir o quão fabuloso tudo está a ser.
É o monstro de Frankenstein quem as assusta, mas nem por isso desviam o olhar. As crianças querem descobrir o que há para lá das nuvens e das estrelas, o que fez aquele homem ousar desafiar a força maior. Porém sabem já que aquilo é apenas um filme, que o monstro nunca irá rasgar a película que as mantém longe dele. Por isso estão protegidas na cúpula da sua inocência, ainda assim com um arsenal de mães e tias e vizinhas às costas caso a criatura se lembre de lhes tentar pregar alguma partida.
“Um último conselho foi-lhes dado antes de o apresentador bater à porta do filme: não levar o cinema demasiado a sério. É este o ensinamento que mais cedo vão esquecer”
A alguns dos mais velhos a própria existência foi sugando a força de continuar, portanto as crianças passam a ser o único motivo para terem de sobreviver. É nelas que a esperança de uma vida melhor está depositada. Por isso é preciso tomar conta delas.
Estes adultos querem viver longe da nostalgia, mas estão confinados a esse desespero ocular, porque pouco lhes sobrou.
Resta-lhes imaginar: o passado está-lhes esticado à frente, como um filme que não conseguem desligar pois são incapazes de o esquecer. Porém o passado é sempre inalcançável.

E no meio da memória as crianças vão brincando, entre sonhos e pesadelos que surgem sem pedir licença, gritos e silêncios que doem como uma ferida que acabaram de abrir, numa confusão que parece não terminar mas tem o seu fim quando o maior medo lhes surge na esquina ou atrás de uma colmeia, sugando-lhes a força necessária para gritar pela ajuda de quem tão lhes quer bem.
