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As estratégias e ferramentas digitais observadas à luz da Encíclica Magnifica Humanita do Papa Leão XIV

02 de junho de 2026 às 08 h45

A estratégia desenvolvida pela Deloitte (2018) sugere reflexões de zoom out, materializadas na visualização e no foco, e ponderações de zoom in concretizadas na definição e na mobilização. O fundamento desta visão estratégica, aplicável ao mundo digital, tem por base a perceção de que o ambiente de negócios atravessa atualmente mudanças múltiplas e rápidas, o que significa que o ciclo tradicional de planeamento, para ser utilizável, precisa de se adaptar às novas dinâmicas do mercado. Isto significa que as empresas precisam de pensar para além dos desafios atuais; ou seja, as organizações que ambicionam obter sucesso contínuo e consistente não podem perder a visão de longo prazo. Por isso, a estratégia definida pela Monitor Deloitte assume uma visão de 10 a 20 anos, reconhecendo-se q

ue é possível obter, simultaneamente, eficiência e transformação, ao fundir e fertilizar, de forma harmoniosa, as iniciativas de longo e curto prazo.
De forma semelhante, as Nações Unidas emitiram, em 2019, um relatório intitulado “Governo Digital da ONU”, apoiado numa abordagem ecossistémica orientada para os objetivos de desenvolvimento sustentável e para a prestação de serviços públicos. Com este tipo de estratégia, Singapura adotou uma abordagem holística para desenvolver o seu programa de smart nation e de transformação digital. O Quénia, por sua vez, apresentou o plano Vision 2030, para reforçar a integração efetiva de todos os serviços públicos. O mesmo se tem verificado em vários países europeus (Finlândia, Letónia, Dinamarca, etc.), que consideram que a transformação digital é fundamental para induzir alterações estratégicas e inovação nos modelos públicos de governação. As tecnologias digitais e a intensidade digital são monitorizadas pela Comissão Europeia desde 2014, através de relatórios próprios, suportados pelo chamado índice de intensidade digital, que quantifica a utilização de diferentes tecnologias digitais ao nível empresarial e em cada país. Este indicador visa monitorizar a meta do caminho para a Década Digital 2030. Deste modo, todos os países europeus, de forma mais ou menos analítica, formalizaram estratégias de atuação no campo da transformação digital, baseadas na filosofia da Década Digital que reflete o seu impacto ético, político e ontológico.

Com efeito, empresas e governos estão a investir no desenvolvimento de novas tecnologias para aproveitarem as oportunidades de crescimento alavancadas pela inteligência artificial e outras tecnologias. Na verdade, o uso de dispositivos digitais, as tecnologias web e móveis têm uma grande relevância quando se analisa a utilização de dispositivos digitais pelo lado da procura. Entre as múltiplas tecnologias existentes, realça-se a dos gémeos digitais, pela sua aptidão para antecipar problemas prospetivos, em ligação direta com os seres humanos, sendo, atualmente, possível encontrar gémeos digitais em diversas áreas.

De facto, a dignidade do ser humano, como critério para orientar o progresso técnico, é a principal preocupação do Papa Leão XIV, revelada na Encíclica Magnifica Humanita, que tem como foco a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial. Todavia, esta sábia e evangélica preocupação não é nova. Está inserida no centro da Década Digital 2030, o conhecido programa estratégico da União Europeia e de Portugal que visa acelerar a transformação digital até 2030, centrado em quatro pilares principais: conectividade, competências digitais, digitalização das empresas e dos serviços públicos digitais. O significado da pessoa humana, neste enquadramento, exige que a tecnologia respeite a dignidade, a liberdade e os direitos fundamentais, garantindo que o acesso às ferramentas tecnológicas seja igualitário e beneficie todos, sem naturalmente substituir a essência e o valor único de cada indivíduo.

Na verdade, o mundo digital em que vivemos evidencia o seguinte paradoxo: à medida que a tecnologia se torna mais poderosa e generalizada, as capacidades humanas tornam-se ainda mais relevantes e podem fazer a diferença. Isto significa que os fundamentos e princípios da doutrina social da Igreja abrangem o bem-estar geral e o benefício público, o destino universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade, a que se alia a justiça social, os quais, quando aplicados como eixo das relações sociais, conduzem ao desenvolvimento humano integral, que agrega e harmoniza a técnica, o poder e o sujeito pensante. Ou seja, o valor do desenvolvimento económico, como expressão da criatividade humana, não pode nem deve ser considerado um critério absoluto de julgamento. Com efeito, à inteligência artificial, desprovida de experiências, valores e sentimentos, está vedado assumir um papel de supremacia sobre a inteligência humana. Esta preocupação esteve sempre subjacente à Época Digital, iniciada em 2020, entretanto reforçada pela inquietude do Santo Padre em 2026.

Nunca é tarde demais manifestar desassossego quando está em causa a dignidade e o valor da pessoa humana.

 

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