Construir (n)o futuro
Recuando no tempo quase 20 anos, recordo um vídeo produzido pela Monocle Magazine que, debaixo do título “Construindo o futuro”, apresentava um sistema robotizado de “bricklaying”, um robô para construção automatizada de paredes pré-fabricadas de alvenaria em tijolo. Um conceito bastante disruptivo à época para o setor da construção. Isto em vésperas da crise de 2008 do subprime nos EUA, a qual, como hoje sabemos, arrastou a Europa para uma crise nas instituições financeiras e trouxe consigo uma das maiores crises de sempre do setor da construção, da qual este setor talvez nunca se tenha recuperado verdadeiramente.
Com os preços das casas a bater máximos históricos a cada mês, fenómeno fortemente pressionado pelo desfasamento entre a oferta e a procura, procuram-se soluções para aumentar a oferta, as quais esbarram consecutivamente no problema crónico da falta de mão de obra para este setor.
Os preços da habitação em Portugal têm vindo a subir há mais de uma década – se compararmos os preços de 2025 com 2010, vemos que o preço da habitação subiu 141% em Portugal, de acordo com o Eurostat.
Os processos construtivos que vemos hoje continuam ainda maioritariamente a ser os processos tradicionais, sendo este setor bastante conservador deste ponto de vista. Processos tradicionais são intensivos em mão de obra, aquele que é o recurso mais escasso neste momento, tornando a construção um processo lento e caro e ao qual a tecnologia, que em alguns casos já existe, parece ainda não ter chegado.
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Uma das soluções que começa a ganhar força é a industrialização através da pré-fabricação. Embora mais aplicável a construções modulares (hotéis, etc.), neste método de construção off-site, a construção dos componentes de um edifício decorre em ambiente de fábrica, podendo ser automatizados diversos processos de construção e montagem para posteriormente serem assemblados em obra, tornando assim viável a utilização de tecnologia neste processo.
Naturalmente, são as maiores empresas que têm meios para implementar este tipo de construção, a construção de habitações de menor dimensão (moradias, etc.) é realizada maioritariamente por pequenas empresas nas quais é mais difícil inovar.
Também o BIM (Building Information Modeling) é outro exemplo de tecnologia ainda subaproveitada. Trata-se de uma metodologia colaborativa que permite projetar e executar edifícios com base em modelos digitais integrados, reduzindo erros e conflitos entre especialidades, diminuindo também o desperdício. Apesar disso, a sua adoção em Portugal continua a não ser generalizada, embora se perspetive a sua obrigatoriedade a partir de 2030.
Outras tecnologias começam também a ganhar visibilidade, ainda que em construções muito específicas. A impressão 3D em betão é disso um exemplo, permitindo, com base num modelo digital, produzir paredes completas por deposição sucessiva de camadas de argamassa/cimento.
Tecnologia emergente neste setor é a dos digital twins ou gémeos digitais – réplicas virtuais de edifícios e obras que refletem o seu estado real ao longo do tempo, podendo ser atualizadas com recurso a drones e outras tecnologias de digitalização 3D.
Volvidos estes anos, o acesso à habitação tornou-se um dos maiores desafios em Portugal. E, com um modelo produtivo na construção que já não responde às necessidades atuais, não podemos dar-nos ao luxo de esperar outros 20 anos para vermos a digitalização e a adoção de tecnologia acontecerem neste setor.
