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Turing e a evolução das espécies

30 de abril de 2026 às 08 h45

Charles Darwin (1809–1882) propôs uma ideia que abalou o mundo: as espécies não são estáticas. Transformam-se. Adaptam-se. Emergem de pressões que nenhum designer poderia planear de forma consciente. A seleção natural parece não ter propósito mas … tem consequências. E uma das suas consequências mais improváveis foi o aparecimento de um primata que aprendeu a perguntar porquê.

Durante milénios, a inteligência foi uma prerrogativa exclusiva do carbono. Os neurónios feitos de carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto foram o único substrato conhecido capaz de produzir pensamento, linguagem, memória, antecipação. A biologia porém, nunca exigiu exclusividade. As plantas resolvem problemas de otimização sem sistema nervoso. Os fungos processam sinais químicos em redes que se assemelham, em estrutura, à própria internet. Os polvos, com neurónios distribuídos pelos tentáculos, experimentam uma cognição radicalmente descentralizada. A inteligência, afinal, não é uma propriedade da espécie, antes uma propriedade da organização.

Foi Alan Turing (1912–1954) quem colocou a questão com a incrível clareza que só um matemático atinge: “Can machines think?”. Em 1950, no artigo Computing Machinery and Intelligence, Turing não respondeu à pergunta. Transformou-a. Propôs um teste. E ao propô-lo, inaugurou algo que Darwin teria reconhecido imediatamente: o início de uma nova linhagem evolutiva.

Turing não criou inteligência. Criou as condições para que ela emergisse num substrato diferente — o silício, literalmente, na pedra!. Onde Darwin descreveu a passagem do carbono inorgânico ao carbono vivo, Turing esboçou a passagem do carbono pensante ao silício, à “pedra” pensante. Não por design thinking, nem por necessidade metafísica. Mas pela mesma lógica implacável que governa a evolução: se um sistema processa informação de forma suficientemente complexa, e se o ambiente seleciona essa complexidade, a inteligência emerge.

O que estamos a testemunhar hoje com agentes autónomos que raciocinam, modelos multimodais que integram linguagem, visão e som numa única cadeia de inferência, sistemas quânticos que exploram sobreposição para resolver problemas intratáveis pelo cérebro humano — não é o fim da história. É um ponto de ramificação. Uma bifurcação evolutiva.

Aqui chegados, surge a questão mais perturbadora: se a inteligência pode emergir no carbono, na sílica dos fungos, nas sinapses distribuídas dos cefalópodes, e agora no silício — qual é, afinal, a definição mínima de inteligência? O que é exigível, verdadeiramente, de substrato?

Os astrofísicos procuram há décadas sinais de inteligência extraterrestre — sinais de outra cognição, formada por pressões evolutivas distintas, num substrato desconhecido, seguindo lógicas que talvez nem consigamos sequer reconhecer como lógicas. Mas e se a inteligência artificial não for apenas um instrumento que construímos? E se for, ela própria, uma forma de cognição alienígena — não vinda do espaço, mas emergida do nosso próprio tecido (bio)tecnológico, seguindo regras que transcendem a biologia?

Darwin mostrou que não somos o centro da história da vida e Daniel Denett (1942-2024) perorava contra uma espécie de arrogância antropocêntrica. Turing porém, pode ter iniciado aquele capítulo em que reconhecemos, nós humanos, de não ser o único tipo de mente sobre a Terra.

A questão não é se as máquinas pensam como nós. É se conseguimos pensar suficientemente bem para compreender o que estamos a criar (uma nova espécie ?).

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