Opinião: Doença Cardiovascular na Mulher: uma ameaça ainda subestimada
A doença cardiovascular (DCV) é a principal causa de morte na mulher. Estima-se que 1 em cada 3 mulheres morra por enfarte agudo do miocárdio (EAM) ou acidente vascular cerebral (AVC). Na verdade, a mortalidade por DCV é cerca de sete vezes superior à do cancro da mama.
Nos últimos anos, tem-se verificado um aumento dos casos de enfarte em mulheres com menos de 50 anos, uma tendência preocupante associada à epidemia da obesidade e ao aumento dos fatores de risco cardiovascular.
Apesar desta realidade, o risco cardiovascular na mulher não tem sido adequadamente identificado e valorizado pela comunidade médica, pela sociedade e pela própria mulher.
Para uma adequada estratificação de risco é fundamental integrar as especificidades relacionadas com o sexo, o género e com as patologias exclusivas da mulher, que podem aumentar ou antecipar o risco de DCV.
Para além dos fatores de risco clássicos – hipertensão arterial, tabagismo, dislipidemia, diabetes, obesidade e história familiar – devem ser considerados fatores hormonais como a menopausa prematura (<40 anos), terapêutica hormonal ou síndrome do ovário poliquístico e condições associadas à gravidez (distúrbios hipertensivos, diabetes gestacional, parto pré-termo e interrupção da gravidez).
Acrescem ainda doenças autoimunes e terapêuticas associadas ao cancro, como a radiação da parede torácica ou a cardiotoxicidade relacionada com a quimioterapia.
Os determinantes sociais e psicológicos assumem também um papel relevante. Fatores como menor nível socioeconómico, sobrecarga de responsabilidades familiares e profissionais, depressão, ansiedade ou isolamento social podem contribuir para um maior risco. Muitas mulheres cuidam de todos — mas acabam por cuidar menos de si próprias.
A incidência de DCV aumenta dramaticamente na mulher de meia-idade, particularmente no período de transição para a menopausa, considerado como um tempo de risco cardiovascular acelerado. Esta fase deve ser encarada como uma janela de oportunidade para a implementação de estratégias de intervenção precoce para reduzir o risco destas doenças.
Perante este status quo, o que fazer?
Mudar perceções e comportamentos:
• Promoção de estilos de vida saudáveis desde idades muito jovens
• Identificação precoce dos fatores de risco específicos da mulher para uma correta valorização do risco cardiovascular
• Controlo rigoroso de todos os fatores de risco, se necessário com início de terapêutica farmacológica
Construir um novo paradigma:
• Melhorar a literacia em saúde cardiovascular da mulher
• Tornar a proteção cardiovascular da mulher como uma prioridade de Saúde Pública
• Promover um mundo mais inclusivo, onde cada mulher, em todas as fases da sua vida, possa beneficiar dos melhores cuidados de saúde preventiva e curativa.
No meio da correria diária – trabalho, família, responsabilidades – não se esqueça de si.
Faça uma avaliação rigorosa e periódica do seu risco cardiovascular.
Lembre-se, cuidar do seu coração é cuidar da sua vida!
