Opinião – Hospital Compaixão. À atenção da ministra da Saúde

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Num gesto invulgar, abri o dicionário. Confirmei que compaixão significa dor que nos causa o mal alheio. Fiquei abatido. Voltei a abrir o calhamaço, e li que também é comiseração, dó e pesar. Esfreguei os olhos, que a noite ia longa, e voltei a ler. Vi então que compaixão também é piedade. Aí, suspirei de dor, pois quem não sabe que tantos pedem ao Senhor que tenha piedade de nós… E comecei nesse instante a compreender o enorme drama que encerra ter um hospital, devidamente equipado, encerrado, por não ter uns contratos, que pouparão dinheiro ao Estado!
Não se crê que a ministra da Saúde não sinta dores alheias. Mas, se o seu desgosto fosse intenso, decerto cuidaria também de minudências, como a ADSE não comparticipar medicamentos que podem significar a diferença entre viver e morrer, só porque custam muito dinheiro. E como o governo a que a ministra da Saúde pertence, diz ter excedentes orçamentais, porque atribuirá a terrena ministra, tão baixo valor, à vida de tanta gente? Se fosse ministra de qualquer divindade, fosse qual fosse, decerto sentiria um pouco mais de dor, por quem sofre tanto, e há tanto tempo.
Se for este o verdadeiro problema, talvez ajude, meditar num Templo Ecuménico. Quem sabe se não passará a contemplar a vida alheia com mais piedade. Ou, dito de outro modo, com maior comiseração, que é o que tem faltado a muitos governantes, com quem reúne semanalmente. E já agora, convirá que nenhum confunda a primeira nota da escala musical natural com o pesar que os bem-intencionados sentem por gente que, de tão doente, mete dó a qualquer ser humano!
Quanto a esta última observação, certamente que a ministra da Saúde não terá qualquer dúvida, já que sabe dar música a médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, auxiliares de saúde e administrativos, sem falar na que vai dando a fornecedores, prestadores de serviços, e a outros.
Mas saberá a douta ministra que, no IPO de Coimbra, há mulheres que tiveram cancro da mama, e que vão anualmente a consultas de acompanhamento, mas que desde 2017 aguardam por uma mamografia que permita aos médicos verem mais do que as adequadas palpações que vão fazendo, para despistar, em doentes de risco, possíveis alterações malignas? Como o ministério cumprirá escrupulosamente os seus deveres de gestão, para os clínicos poderem seguir os mais adequados protocolos, será devido a equipamentos infernais, na era da “internet das coisas”?
E saberá a tão excelsa ministra, que passou a ser frequente ir-se à farmácia aviar medicamentos necessários a quem está doente, e os mesmos estarem esgotados? Não há dias, mas há semanas? Claro que a responsabilidade será daqueles cruéis e irresponsáveis gestores de laboratórios que exportam remédios, em vez de abastecerem o mercado interno, preferindo receber a pronto, para pagar longas e custosas investigações, patentes, equipamentos, máquinas, matérias-primas, salários e serviços, em vez de fiarem o fruto do seu labor ao SNS… sem data de recebimento…
Senhora ministra da Saúde, quando vier a Coimbra – a sua cidade – passe por Miranda do Corvo. Não para ir ao Templo Ecuménico ou para admirar a notável obra da ADFP, que conhecerá. Vá direta ao Hospital Compaixão, e, por piedade, tenha dó de quem necessita de uma cama para ter cuidados paliativos, ou de quem aguarda há anos por exames, como mamografias, e por muitos outros, que nem refiro. Se Jaime Ramos for o seu distinto guia, constatará que o hospital tem meios que professores, médicos e enfermeiros, dizem que fazem imensa falta ao povo. E, se vier a concordar com o que tanta gente ilustre tem dito, crie condições para o hospital funcionar no interior do país, em que há pessoas laboriosas, que merecem o respeito de todos os governantes!

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