Opinião: Sobre o derradeiro dia de férias

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O dia amanheceu perfeito, sem nuvens nem neblina. O ar, puro e sem vento. O mar, de um azul profundo que clareou à medida que o sol crescia, no início da baixa-mar. E foram estes apelos irresistíveis da natureza que, numa hora tão madrugadora, me conduziram àquela praia, onde o areal deserto, e a leve ondulação duma água cristalina e de temperatura amena seduziam qualquer um. Foi então que espraiei o olhar pelo infinito, e mergulhei nas águas do Atlântico, que nesta parte deste país têm um suave odor a maresia, e são de uma frescura irrepreensível.
À medida que o derradeiro dia de férias ia avançando, a praia ganhava movimento. Primeiro, de banhistas, e acompanhando a subida da maré, de surfistas que iniciavam no areal os seus rituais de preparação física e mental, antes de se lançarem no mar, com as esguias pranchas com que dominavam as ondas que cresciam devagar, mas com forte pujança. E foi belíssimo ver como aquele areal ganhou uma nova e vibrante vida, de gente irmanada na sua paixão pelo mar.
Foi quando a vastidão do oceano deixou de me pertencer, por ter de a partilhar com os jovens que ziguezagueavam pelas ondas com extrema perícia, erguendo-se e caindo com elegância, vezes sem fim, espelhando os seus rostos e corpos, a serenidade com que o mar os preenchia. E dei por mim a pensar que, se o Atlântico acalma até a quem só tem a cabeça à tona da água, que sensações deverão ter os que têm a capacidade de cavalgar as mais altas e fortes ondas do mar…
E foi então que, entre rapazes e raparigas, vi gente de grisalhas barbas que aparentavam ser da minha idade, tal é o apego do mar sobre quem ama a liberdade, e a tem sempre presente no pensamento. Sei que o desejo de aventura não tem limites, e que a adrenalina criada pela prática desportiva afasta o avançar da idade, por mais que emérito Professor, afamado Cirurgião, e estimado Amigo, me tenha dito, um dia, que todos temos sempre a idade das nossas artérias…
Entretanto, aquele sol radioso ia aquecendo os banhistas que repousavam à beira-mar, num dia que se tornava cada vez mais formoso, e de uma doçura e calmaria inesquecíveis, a exemplo do que tem acontecido em tantos outros dias de outros meses, e não só do último agosto, mas de qualquer verão, que depois rememoramos, nos meses mais frescos que cedo demais nos surgem.
Se diversas praias do Centro já são tão sedutoras, o inevitável avanço do aquecimento global, que fará aumentar a temperatura das águas que as banham, tornarão algumas delas nos mais apetecidos e encantadores areais do sul da Europa, para deleite de futuras gerações.
Hoje, muitos dos que usufruem de praias ímpares, notam e criticam o desleixo na limpeza dos areais. E já não é só o atraso com que o lixo é recolhido no início de cada época balnear! Há cada vez mais resíduos trazidos pelas marés vivas, que permanecem nos areais, pelo que se terá de exigir que Autarquias e Ministério do Ambiente colaborem ativamente, e cumpram as suas obrigações legais.

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