Opinião: O guru e a aldeia bué-bué de longe

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Numa aldeia, que fica bué-bué de longe e é desconhecida da generalidade dos Portugueses, o tipo mais importante da terra queria, de novo, ganhar as eleições para presidente. Já tinha prometido tudo a todos, sem nada ter cumprido, já tinha inventado todo o tipo de tropelias para dar emprego na autarquia a um número gigantesco de pessoas e realizado as festas que podia realizar. Faltava-lhe algo de novo. Como já estava velho e cansado, sem capacidade, nem vontade de inventar uma nova narrativa, decidiu contratar um guru. Procurou pela internet e lá encontrou um guru fantástico, que por acaso até era uma mulher, que prontamente aceitou a incumbência em troca de uma pequena fortuna.
A guru começou pelas coisas óbvias, que já outros tinham feito no passado. Cedo verificou que não podia mudar a forma de vestir do presidente, nem a marca dos fatos, porque eram todos iguais. Não lhe podia mudar o automóvel, porque, como lhe responderam, “já A6 na garagem”. Não lhe podia mudar os discursos, porque já nada fazia sentido e ninguém, na aldeia e fora dela, ligava ao que o presidente dizia. Aparecer na TV também não era opção, porque o presidente era um homem de silêncios. Em desespero, a guru decidiu dar uma volta pela aldeia para ver se lhe surgiam ideias.
Pensou em obras para melhorar isto e aquilo, pois via tudo sujo e desorganizado, mas todas as obras da aldeia estavam paradas por falência das empresas contratadas para as realizar. Não era lá grande ideia prometer mais uma obra, para entregar a mais uma empresa que, entretanto, ia à falência porque essa empresa sabia de tudo, menos de obras.
Pensou em fazer qualquer coisa com a escola da aldeia, mas isso não podia ser porque o presidente não gostava de gente inteligente com a mania de fazer perguntas.
Pensou em normalizar os passeios da aldeia, pois os velhotes, e também os novos, fartavam-se de falar disso, mas lá está, isso era mais uma obra e, consequentemente, nunca se realizaria, nem ninguém ia acreditar que se fosse realizar.
Pensou em montar um programa de atração de investimento, pois a aldeia estava estagnada há muito tempo, mas tirou logo daí a ideia, pois o presidente só tinha agenda para receber investidores à quinta-feira, das 12:35 às 12:38, perante marcação prévia, com uma antecedência de 200 dias, pagamento de caução de inscrição e preenchimento de um formulário de candidatura.
Pensou em revitalizar os parques industriais e de ciência e tecnologia da aldeia, parados há muitas luas, mas suspirou fundo quando lhe comunicaram certas e determinadas coisas que não vale agora a pena explicar.
Pensou em organizar uma feira cultural, digna desse nome, num dos jardins da aldeia, mas alguém lhe lembrou que a aldeia já tinha uma feira dessas que decorria durante 2 semanas e nas quais uma colaboradora do presidente declamava continuamente poemas da sua autoria.
Pensou em mais espetáculos culturais, mas lembraram-lhe uma feira popular, com carrocéis e comes e bebes, que já custava muito dinheiro ao erário público. Já chegava de cultura.
Muitas outras ideias foram por água abaixo por razões similares. Aproximou-se do rio. Viu uma data de patos a levantar voo, depois de nadarem vigorosamente sobre a água – junto a um estranho repuxo. A princípio isso não lhe deu ideia nenhuma de jeito. Pensou num aeroporto, mas afastou logo isso da mente, porque tinha a certeza de que a população da aldeia, conhecida pela sua cultura, não caía nesse logro. Pensou em investir no clube desportivo da aldeia, mas isso não lhe pareceu muito eficaz, até porque na aldeia toda a gente era adepta de clubes doutras aldeias. Pensou em lançar a ideia de criar patos e promover o “pato no forno” ou o “arroz de pato” como petiscos da aldeia, atraindo assim forasteiros, mas isso já era algo típico de uma aldeia vizinha: não era, portanto, inovador, nem digno de um programa eleitoral. Os patos fizeram-lhe lembrar cegonhas e pensou em lançar a ideia de fazer uma nova maternidade, mas imaginou que na aldeia, especialista em dar tiros nos pés, isso seria mais motivo de desunião do que de motivação para eleger o presidente, pelo que afastou logo essa ideia.
Desanimada, a guru telefonou ao presidente a dizer que desistia, relatando o que tinha pensado para mostrar que se tinha esforçado. Quando o presidente ouviu a palavra “aeroporto”, apesar do negativismo da guru, gritou: “Excelente ideia”. E ganhou de novo a presidência. Fim.

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