Opinião – Não há nada como a sinceridade

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Sempre defendi que em política, como em tudo na vida, que não há nada como a sinceridade. Eu vivo com este princípio, apesar de reconhecer que essa “teimosia” já me traiu muitas vezes. Como estratégia, é totalmente ineficiente para ter sucesso num mundo gerido por aparências e respetiva notoriedade, sendo bem mais eficaz adotar a flexibilidade de coluna definida por Grouxo Marx: “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros”. No entanto, tem vantagens na avaliação pessoal que fazemos de nós próprios e permite um trajeto de vida com significado. Tudo coisa pouca, portanto.

Lembrei-me disto, imaginem, quando refletia sobre duas polémicas recentes da vida nacional ao mesmo tempo que escrevia este texto e ouvia Ivo Rosa a considerar como improcedente, inócua e incongruente a acusação a José Sócrates e Santos Silva.

A regra para o sucesso é dizer o que é suposto ser bem recebido pela população, esconder algum tipo de passado incómodo e assumir uma atitude assética, sem rumo, como se uma vida fosse um trajeto que fosse possível de fazer sem falhas, sem momentos baixos e sem nada de negativo. Essa estratégia, hoje fortemente defendida, afasta os homens e as mulheres de caráter, habituadas a contratempos e a navegar à bolina contra ventos e ondas altas, preferindo pessoas mais flexíveis e bem mais simpáticas ao olho rápido da espuma dos dias.

A primeira polémica foi uma intervenção de Francisco Louçã na SICN sobre o “Holodomor”, na qual o Conselheiro de Estado tirava de contexto umas frases de uma intervenção de uma deputada municipal de Lisboa, de origem Ucraniana, em que esta condenava a participação de Estaline e do Comunismo no crime humanitário da “grande fome”. Não vou comentar a muito triste intervenção do Senhor Conselheiro de Estado, nem o seu sorrisinho de superioridade, mas tão somente dizer que somos todos coniventes com as consequências de branqueamento da história que este tipo de comportamento permite, quando não reagimos e não exigimos explicações públicas da parte destes responsáveis do Estado Português.

A segunda refere-se a Susana Garcia, a candidata do PSD à câmara da Amadora. Não me lembro de ter visto uma tamanha campanha de ataque de caráter a uma pessoa em Portugal, ao mesmo tempo que se referiam aspetos relacionados com o seu aspeto físico (gigantomastia) e eventuais amigos pessoais e políticos. Tirando frases do contexto, a candidata é apresentada na imprensa como defendendo a castração de pedófilos, ser racista e xenófoba e defender posições de extrema-direita.

O Secretário-Geral do PSD, geralmente pouco feliz nas suas intervenções que faz e nas sondagens que organiza, contribuiu para a confusão quando afirmou que nada impedia a Susana Garcia de ser candidata autárquica pelo PSD, mas o mesmo não se aplicava a um eventual candidatura ao Parlamento. Não costumo ligar às redes-sociais, nem ao ruído inerente transposto para a comunicação social, mas fui ver o que defendia a Senhora Candidata sobre pedofilia. Segundo ela, a pedofilia é uma doença, pelo que os pedófilos devem ser tratados. Consequentemente, propõe que um pedófilo reincidente seja obrigatoriamente medicado para reduzir a sua líbido, pois isso ajudaria a que não voltasse a cometer este crime horrendo.

No entanto, as redes sociais e a imprensa falam que “Susana Garcia defende castração química”. Nada me aproxima desta candidata, nomeadamente na forma como vê o mundo e muito menos nas propostas que faz, mas isso não significa que aceito prescindir do principio de reconhecer que tem todo o direito em fazer propostas, como de ser candidata e, acima de tudo, de ser confrontada de forma dura e justa com aquilo que defende. A técnica de atacar em bando, colando autocolantes naqueles de quem não gostamos, para os afastar e denegrir, é uma atitude antidemocrática e fortemente contrária a uma sociedade livre e plural.

Prefiro a sinceridade, a frontalidade e a capacidade de contrariar lógicas de pequeno grupo. Mas isso não paga, eu sei, e, como me disse um dia um querido amigo, “a malta cansa-se de ser pobre”. Pois.

Joaquim Norberto Pires escreve ao sábado, quinzenalmente

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