Opinião – A boa vontade dos condecorados de Estado

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Em abril de 2006, depois de assinar uma parceria Estado-Berardo, a Ministra da Cultura Isabel Pires de Lima afirmou: “Não precisamos de acordos blindados. Estamos certos da boa vontade do comendador”.
Essa parceria materializava-se numa Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo, que passou a gerir o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e na qual Berardo passou a ter uma palavra decisiva em questões fundamentais. Brilhante.
Claro que todos sabiam do que se estava a passar. O querido comendador passava a controlar a maior e mais importante sala de exposições do CCB. Pelo meio, o querido e bem-intencionado comendador era usado como testa de ferro de uma operação que visava para tomar conta do maior banco comercial português. Nessa operação, cuidadosamente montada, usava-se dinheiro dos contribuintes, isto é, dinheiro “emprestado” sem garantias pela CGD. Não havia razões para desconfiar da boa vontade do comendador e muito menos de quem o andava a empurrar para essa aventura de “ajudar os bancos”. O resultado são cerca de mil milhões em dívida.
O Comendador, condecorado duas vezes pelo Estado (uma pelo Presidente Eanes e outra pelo Presidente Sampaio) e elogiado pelo atual presidente como personalidade do ano, quando Marcelo era comentador televisivo, continua a ser a mesma pessoa. Um simplório, espertalhão e vivaço. Cuidou de se proteger, com toda a boa vontade, de forma a que “as ajudas que deu aos bancos” não se virassem contra ele e fossem motivo para lhe tirarem dinheiro ou a sua coleção de arte. Lembra-se de tudo, não é como outros condecorados que vão à Assembleia da República demonstrar a sua amnésia súbita sobre tudo o que fizeram na vida. Como é um simplório, disse tudo na cara dos deputados: ele não tem dívidas, nós é que temos porque ele usou o nosso dinheiro, e a coleção de arte está totalmente protegida porque ele não é parvo, os nossos representantes eleitos e os nossos Governantes é que são.
Como o Joe gozou com os deputados à fartazana, estes ficaram sentidos. E logo ameaçaram que lhe tiravam a coleção de arte se ele não pagasse a dívida à CGD. Mas a coleção de arte não pode ser vendida e o Estado não a quer vender, pelo que ficar com a coleção de arte do Joe não serve para pagar a dívida e não beneficia em nada a CGD. É só má-consciência, certo?
Para além disso, e porque o Joe, no seu estilo despreocupado, se lembrava de tudo e disse o que tinha a dizer (as falhas de memória são muito importantes para manter as coisas escondidas), os políticos, muito preocupados, trataram logo de exigir que perdesse as comendas. Ora, aí é que a porca torce o rabo. Eu não concordo, sem que isso se estenda a muitos outros que foram condecorados no passado recente, nomeadamente aqueles que foram ao parlamento dizer que já não se lembravam de nada do que tinham feito no passado. Os responsáveis de tudo isto, de negócios ruinosos dos Estado, das parcerias do Estado com todos os oportunistas que, em pequeno grupo, conseguiram apoderar-se de recursos públicos, quase todos condecorados com elevadas comendas, têm de ser denunciados, responsabilizados e as suas comendas devem ser removidas. Proponho, no 10 de junho, a par da cerimónia de atribuição de comendas, uma nova cerimónia de remoção de medalhas. Talvez assim o Estado, que somos todos nós, ganhasse vergonha e fosse mais exigente com os “seus heróis”.

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