Opinião – Chocado e envergonhado com Pedrógão Grande

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Confesso-me chocado com o que vi e ouvi na reportagem da TVI sobre o processo de reconstrução de casas em Pedrógão. O que vi a seguir também não me deixou mais tranquilo. Da reportagem da Ana Leal registei a esperteza saloia que permite tirar partido do dinheiro dos contribuintes, mas também daquele dinheiro que foi enviado para Pedrógão tendo em conta a solidariedade dos Portugueses espalhados por todo o mundo. Esperteza saloia, compadrio e falta de vergonha. Várias pessoas disseram na reportagem que foram incentivadas pelo Presidente da Câmara de Pedrógão, ao que sei ex-inspetor da PJ (reformado), a alterar a morada fi scal para poderem aceder aos donativos e outros benefícios e assim reconstruir palheiros, casas abandonadas, etc., como se fossem de primeira habitação. Foram benefi ciados os familiares e amigos das pessoas da câmara municipal e das respetivas juntas de freguesia. Também li declarações atribuídas à Presidente da CCDRC (que não foram desmentidas) em que se dizia que a morada fi scal que se considerava era a da entrega do processo de candidatura a benefícios e não a que se verifi cava à data do incêndio. Se isto não é uma porta aberta à fraude, não sei o que é. Tudo isto me deixa perplexo e chocado. Na reportagem aparecia ainda um casal idoso que perdeu tudo na sua 2ª habitação, que afi rmava ser recebida com frequência pelo Presidente da Câmara, mas, mesmo assim, se recusou a mudar a residência fi scal. Na reportagem disseram que ouviram do vereador da câmara a seguinte frase: “os processos foram para Coimbra, foram aprovados, não podemos fazer nada”. Assumo que Coimbra signifi ca a CCDRC. Perante tudo isto, não vi uma atuação imediata das autoridades, suspendendo de funções as pessoas envolvidas e promovendo uma investigação urgente a todos estas gravíssimas acusações. Não é possível não querer saber, não reagir e não proteger o interesse público, o bom-nome do Estado e de todos os servidores públicos. Isso ainda me deixa mais envergonhado. Acresce que o PM António Costa reagiu a tudo isto com ligeireza. Na verdade, questionado sobre a reportagem disse simplesmente: “Pelo que sei, do conjunto das nove denúncias, apenas duas são relativas aos fundos geridos pelo Estado. Li hoje que o presidente da Câmara de Pedrógão Grande vai pedir uma investigação. Já havia uma investigação anunciada pela Procuradoria-Geral da República. Investigações não faltam”. É inaceitável que o PM não perceba, ou desvalorize, a enorme gravidade de tudo isto e não se empenhe pessoalmente em esclarecer, com a máxima urgência, todos os seus contornos. A ação política de total imoralidade denunciada nesta reportagem exige uma garantia enérgica do PM de que se empenhará na rápida descoberta da verdade e que fará de todo este caso, até pelos contornos relacionados com donativos dos Portugueses, um caso pessoal. Ao não o fazer, ao responder neste tom, com esta ligeireza e não colocando imediatamente o foco na exigência de decência do Estado, não tenho a menor dúvida em dizer que António Costa teve um comportamento que não é digno de um PM. De tudo retiro um enorme sentimento de vergonha e uma sensação de total discricionariedade e ilegalidade generalizada na relação dos cidadãos com o Estado. Não pode valer tudo. Por fi m, partilho convosco uma enorme preocupação. Se repararem no vosso recibo de vencimento, há um valor muito elevado que todos nós oferecemos ao Estado mensalmente. A reportagem “O Compadrio” da TVI sobre Pedrógão mostra como “alguns” tomam conta do dinheiro que não é deles. Com esta gente, sem princípios e sem noção de serviço público, não há forma de o país deixar de ter défi ce, apesar da enorme carga fi scal. Nunca chega. Nunca chegará. A reportagem da TVI mostra bem como é gravíssima a corrupção e amiguismo em Portugal. É altura de dizer BASTA. Nota: pelo que conheço da Margarida Lopes, vice-presidente da câmara de Pedrógão, bem como de tudo que sobre ela me transmitiu o saudoso Jorge Bento, não acredito que tivesse algum conhecimento sobre o sucedido. Acredito não, tenho a certeza disso.

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