Opinião – Hipócritas

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Não consigo calar a minha indignação e revolta pelo que o Governo acabou de ordenar às escolas portuguesas. Num ofício enviado às escolas pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares dizia-se: “Serve o presente para informar que foram desencadeados os procedimentos inerentes ao pagamento da primeira tranche das bolsas de mérito. Devem proceder apenas ao pagamento de 50% do valor a que o aluno teria direito. O restante valor só será pago em 2019”.
Estamos a falar de bolsas, no valor de 1070 euros, atribuídas a alunos do secundário que beneficiam de ação social escolar e tiveram média igual ou superior a 14 valores no ano letivo anterior.
São, portanto, alunos pobres que, apesar de terem mérito reconhecido, não fazem parte de nenhum lobby poderoso, ou organização secreta, com capacidade de reivindicação nos corredores do poder. O habitual é pagar a 1ª tranche até dezembro, mas o Governo decidiu cativar 50% desse valor este ano, adiando o pagamento do restante para 2019. Os diretores escolares não receberam nenhuma justificação para este procedimento e atribuíram-no a cativações (cegas, claro). Alguns deles, a sul do país, referiram que o dinheiro depositado pelo Governo nem chega nem para pagar 50% do valor das bolsas, pelo que manifestaram a opinião de que tudo isto decorre de gestão financeira de última hora para “maquilhar as contas do Estado”. Os brilharetes são por isso também pagos com o dinheiro dos mais pobres.
Não posso aceitar esta decisão. É uma hipocrisia de todo o tamanho e a manifestação de um engano. Um Governo que andou, juntamente com os seus apoiantes do BE e do PCP, a rasgar as vestes pela escola pública e a gabar-se da reposição de salários e pensões, não pode poupar nos que menos têm e que, apesar disso, foram capazes de obter excelentes resultados. O esforço, o trabalho para obter resultados e o sacrifício de muitas famílias, não pode ser tratado com tanto desespero. Tem de ser acarinhado, porque é aí que reside muita da nossa esperança de dias melhores.
A escola pública, as bolsas de mérito, etc., são instrumentos essenciais de uma sociedade que promove o mérito e o elevador social que ele representa. O investimento nestes instrumentos são, para um social-democrata como eu, pontos de honra na construção de uma sociedade livre, igual e digna. São elementos da cada vez mais ténue esperança de podermos em conjunto construir um país melhor. É inaceitável que este tipo de investimento seja “CATIVADO”. Lamento, mas tudo isto demonstra o ENGANO em que vivemos. Nunca, como agora, se justificou tanto o nome de “geringonça”. A hipocrisia é algo que me incomoda muito e com a qual nunca me habituarei a viver.
Por falar em hipocrisia, registo, para memória futura, que no âmbito da votação na especialidade do Orçamento do Estado para 2019 (OE2019 ), a proposta dos comunistas para criação de uma “linha de apoio às vítimas” da tempestade Leslie foi rejeitada com o voto contra do PS, a abstenção do PSD e os votos a favor do BE e CDS-PP. Portanto, os representantes de Coimbra do PS votaram contra, os do PSD abstiveram-se e os da CDU, do BE e do CDS-PP votaram a favor. Fantástico e muito triste. Basta voltar atrás no tempo e ver o que todos disseram quando, em frente a câmaras de televisão, defendiam que a calamidade provocada por essa tempestade, com uma destruição muito significativa de bens materiais particulares, públicos e ligados às empresas, iria ser especialmente atendida pelos meios públicos. Já não é só hipocrisia, é desfaçatez e incapacidade de assumir como nossas as dificuldades inesperadas daqueles que foram afetados pelo temporal e precisam de ajuda para retomar a sua atividade anterior.
O nível aflitivo de hipocrisia em que vivemos é prenúncio, como sempre foi no passado, de mudanças radicais nada desejáveis pelo elevado nível de sofrimento que provocam, para além de constituírem atrasos civilizacionais inaceitáveis.

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