Opinião – A maldição do cartão vermelho

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PAULO VALÉRIO

Paulo Valério

Em abstracto, o poder local e a Europa são o “ai Jesus” da política nacional. Um e outro, foram sempre temas sagrados – o primeiro, porque a eleição democrática representava uma “conquista de Abril”; o segundo, em termos mediatos, pela mesma razão (ou pela razão do costume, se preferirem) e, em termos imediatos, pela escorrência de leite e mel que anunciava.

Não há, talvez, político do chamado arco do poder que não tenha enchido a boca para proclamar a virtude dos nossos autarcas; para saudar a nossa auspiciosa condição de cidadãos europeus. Em concreto, nunca foi bem assim.

Se fizermos um exercício de memória, não há partido político em Portugal que não se tenha marimbado para a autodeterminação local ou para o aprofundamento europeu, em nome da oposição interna aos sucessivos governos.

É o chamado cartão vermelho ao governo que, da esquerda à direita, todos tomaram como assunto central das suas campanhas europeias e autárquicas. Hoje, quando olhamos em redor, tudo isto é caricato, ou trágico, ou apenas deprimente.

É-o porque o exercício do poder local descurou, em regra, a coesão territorial e desbaratou recursos sem sentido estratégico que estivesse para além de pôr mais uma fanfarra a tocar.

Basta olhar para o mapa e verificar a forma anormal como duplicámos equipamentos caros a escassos metros de distância entre si. Talvez não tenha sido em vão, mas o desemprego e o êxodo crónico para a capital mostram, pelo menos, que não foi sustentável.

Mas é-o, também, quando olhamos para a Europa e percebemos a criatura sinistra em que se tornou. A Comissão e os nossos queridos eurodeputados são todos irrelevantes, embora comoventes, nas suas discussões sobre galheteiros e maçarocas transgénicas.

Talvez não tenha sido em vão, mais uma vez, mas a crise veio demonstrar que se queremos aprofundar a Europa, afundar as nações pode não ser o melhor caminho.

A maldição do cartão vermelho é que, durante décadas, nos dispensámos de passar cartão ao poder local e à Europa, em nome do mais primário oportunismo político. No fundo, até estamos todos de acordo: em boa medida, podemos agradecer à Europa e ao poder local o facto de termos chegado aqui.

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