opinião – Serão submissas as mulheres de Atenas?

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JOSE RIBEIRO FERREIRA DRJosé Ribeiro Ferreira

Na comemoração do dia da mulher, no ano da graça de 2013, gostaria de deixar algumas anotações sobre a situação da mulher na Grécia antiga. Muito se tem dito e escrito sobre a situação dependente e submissa das mulheres gregas que aparece traduzida na célebre canção de Chico Buarque «Mulheres de Atenas”. Um pouco de familiaridade com a cultura helénica depressa, porém, nos obriga a algumas reflexões que lançam sérias dúvidas sobre tal visão tão sombria.

Comecemos pela poesia clássica que podemos observar por dois prismas: as mulheres que se distinguem como criadoras de poesia, quer dizer como poetas; ou as mulheres como personagens, como figuras criadas por essa mesma poesia.

No primeiro caso, ficamos surpreendidos com a galeria de poetisas que a Grécia antiga produziu e com a projeção que algumas atingiram. Realço Safo, natural de Lesbos, que ainda hoje continua uma das maiores poetisas da humanidade e tão bem soube traduzir a fundura dos sentimentos íntimos como amor e ciúme. Os interessados podem ler o que resta da sua obra na recriação poética de Eugénio de Andrade, Poemas e Fragmentos de Safo; eu próprio compus sobre ela não curto poema, publicado em A outra face do Labirinto (MinervaCoimbra, 2002 ). Lembro também a argiva Telesila (séc. VI-V a.C.) que, numa cidade sem homens – todos mortos pelos Espartanos, uns em combate e outros à traição –, congrega as mulheres, incita-as a enfrentar o exército invasor, força-o a retirar e assim salva a cidade; Corina, natural de Tebas ou Tanagra, que adquiriu certo relevo na literatura grega e que, segundo espalhada tradição não se sabe se verdadeira, teria vencido Píndaro cinco vezes em concursos. Mas podia lembrar ainda Mírtis, Praxila, Caríxena

Mas se olharmos a mulher, não como autora e fazedora de poesia, mas como personagem, depara-se-nos galeria de figuras, que nos obriga a refletir sobre a tão debatida e vexata quaestio da importância da mulher na sociedade grega. Lembremos algumas delas: Clitemnestra, Ifigénia, Electra, Helena, Nausícaa, Penélope, Hécuba, Andrómaca, Jocasta, Antígona, Medeia, Alcmena, Dejanira, Ariadne, Fedra, Alceste, Lisístrata.

Não deixa de ser significativo que Nausícaa aconselhe a Ulisses a fazer o pedido à mãe se quer garantir o seu regresso (Odisseia 6. 303-312 ). E também não podemos deixar de nos interrogar sobre a razão por que, na mesma Odisseia, tem Penélope tantos pretendentes à sua volta, quando julgam que Ulisses havia morrido? Dois paradigmas evidentes que de modo algum não significam ausência de poder e de importância da mulher. E o mesmo se diga de Aspásia, para dar um exemplo da esfera política, que foi mulher de Péricles, o aconselhou e exerceu grande influência, quer cultural, quer política em Atenas.

Poderíamos aduzir muitas mais figuras, mas as anotações acima, são suficientes para termos de concluir talvez que as mulheres na Grécia não são assim tão insignificantes e submissas, como vai espalhando a canção de Chico Buarque “Mulheres de Atenas”.

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