As balelas do capitalismo

Aires Antunes Diniz

No momento em que escrevo pouco podemos dizer sobre como será o mundo após o fim da celeuma acerca do caso Rupert Murdoch, despoletado por uma tragédia inaudita por manipulação de informação no seu jornal tablóide, News of the World.

Assistimos por agora a uma luta cerrada pela sobrevivência do negócio que, pelos vistos não cumpriu as praxes do negócio, nem sequer as regras mínimas da dignidade humana. Como algo que se repete vezes sem conta, tal como no início do século XX acontecia a um estudante quando: “A Universidade de Coimbra abriu-lhe as portas. Mas, a sua mentalidade de jovem republicano não se amoldava aos tradicionalismos de uma praxe obsoleta e pouco respeitadora da dignidade pessoal”.1

Esta indignação restringia-se ao universo coimbrão e ficava por aí.

De facto, o caso Murdoch é bem mais abrangente e condicionador do nosso mundo global. Há quatro anos, comprou, “um dos mais prestigiados jornais do sector financeiro, “The Wall Street Journal” (WSJ), passará a ser controlado pelo empresário Rupert Murdoch, que já possui mais de cem publicações impressas no mundo, além da rede de TV Fox, dos estúdios de cinema 20th Century Fox e do site de relacionamento MySpace, entre outros activos na área de comunicações”( http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/2007/08/01/ult4294u730.jhtm). Dava-lhe assim mais poder para manipular mercados e eleições, tornando-se um poderoso “auxiliar” de todo o “bicho careta” da política mundial.

Pouco depois desta compra, recomeçou a desmoronar-se o capitalismo global, sem que houvesse consciência global do que estava a acontecer. Talvez só George Soros, educado por Karl Raymund Popper na London School of Economics, estivesse preparado para analisar as falhas do mercado de capitais global e lucrar com isso. Contudo, desde o caso Enron, cuja contabilidade aguada, levou esta empresa a ficar “rapidamente” com um valor nulo, quando antes parecia valer mundos e fundos, toda esta tragédia era já previsível. Só os economistas críticos parecem ter acertado.

De facto, até os nossos banqueiros foram lançados ao lixo e ainda não perceberam como. Mas, foi a manipulação das consciências que impediu muitos de ter consciência do que estava a acontecer. E isso não afectou só os mercados de capital, atingiu também os teóricos da ciência económica. E também José Sócrates para quem o mundo mudava todos os quinze dias. Do mesmo mal parece já sofrer Passos Coelho que já não confia nos telefones, só no Gmail. E talvez também no Skype?

Felizmente, como sempre, logo que desapareça este torpor, estaremos melhor preparados para analisar e até mudar o mundo.

Espero agora que não seja só esperança.

Mas, isso depende de nós todos os cidadãos do mundo.

 

1 Armando Lúcio Vidal – In memoriam de António Lúcio Vidal, Estante Editora, Aveiro, 1992, p. 13.

 

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