Opinião – Um Maestro descuidado

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Aires Antunes Diniz

 

Com Passos Coelho a comandar a orquestra dos que dizem salvar Portugal, só temos bem afinado o coro dos protestos dos lesados pelo roubo dos subsídios de férias, que agora fazem o coro estridente do silêncio dos lugares de veraneio. É onde se nota a falta de muitos que andam por aí a sobreviver apesar dos cortes de ordenados, de subsídios, da subida de impostos e da descida de vendas, que é bem visível nos restaurantes, supermercados e mercearias de bairro. Mesmo sendo férias, ninguém parece participar nos festejos populares com compras. Nalguns lugares só o faz com a presença massiva porque não pagante. Ouvem só os cantores populares anunciados como se fazia quando se apregoava que: “A Tuna Académica de Coimbra chega hoje. Está na melhor forma. Raposo Marques é um «maestro» que se não descuida.”

Pelo contrário, nada bate certo neste governo que parece estar desafinado e, por vezes, mudo, parecendo demasiado descuidado quando diz alguma coisa. Tudo tem o som desafinado dos falsetes e das sempre demasiadas fífias. Trata-se de um discurso paranoico que não vê o país tal como ele está. Parece que vive um mundo construído pelos dogmas neoliberais e não vê que o mercado é uma balela, como se comprova com a história recente sobre a forma de marcação da Libor, uma taxa de juro. De facto, neste caso está comprovada muita batota, levando qualquer pessoa de bom senso a não acreditar muito na eficácia do mercado de capitais. E muito menos assentar uma política financeira nacional em bases tão movediças. Ninguém agora repara que as agências de rating quase se esfumaram, falando-se dos mercados como entidades mágicas, que ninguém sabe como funcionam realmente.

Entretanto, o governo ignora os incêndios e o vazio das zonas de veraneio, onde a última esperança é agora a vinda de emigrantes.

Nas manifestações a que assistimos no final de Julho, todos os protestantes pareciam tão afinados que pareciam ter aprendido na mesma escola. Mas, na verdade tudo parece tão semelhante em tantas dificuldades pessoais que todos parecem da CGTP ou até do PCP. Há até jornais que estudaram as situações de apupos dos membros do governo e do presidente da República e só encontraram comunistas. Mas, estão errados. Se andassem por aí, veriam como nas ruas é bem afinado o coro dos protestos e quem os faz não são só os comunistas. Recebo até convocações para manifestações de gente até agora improvável neste papel de ativista. Recebo também manifestações de solidariedade para os meus colegas de profissão de muita gente que me conhece como professor.

Está assim criado um ambiente de completo desligamento entre o governo e o povo que diz governar, onde, paradoxalmente, um primeiro-ministro diz estar se lixando para as eleições, mostrando que não sabe qual é a origem do seu poder.

Só lhe resta cair do pedestal.

 

1 Jornal de Notícias, 3 de Março de 1943,

ano 55º, nº 268, p. 1, coluna 2.

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