Opinião – Amores desencontrados

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Aires Antunes Diniz

Aires Antunes Diniz

Houve um tempo em que os amores aconteciam e se transformavam em vidas a dois, quase nunca (?) contrariados pelas famílias dos Romeus e das Julietas, muitas vezes medindo só os haveres de parte a parte nas aldeias para que se mantivesse uma estrutura de classes com a correlativa e tradicional organização económica.

Só os reis e rainhas é que tinham direito a que se dissesse:

“Quanto ela amou! quanto ela foi amada!

Altos cedros da fonte dos amores,

paços de Santa Clara, verdes antros

dos jardins de Coimbra, que assististes de Ignez e Pedro aos êxtases

divinos! 1

Agora os desencontros de amores são devidos às emigrações forçadas deliberadamente por estes desgovernos que instabilizam tudo, como se tivessem direito a partir tudo nas nossas vidas. Partem por isso chorosos muitos dos nossos compatriotas por terem ficado desempregados ou por terem ficado inviáveis os negócios que tinham fundado ou herdado. Ficam assim instáveis as suas vidas e com a deles as nossas. Perdemos com a saída deles mão-de-obra qualificada e empresários dinâmicos que a má cabeça dos governantes fez falir/insolver.

Não têm conto os casos de casais que encontro nos lugares onde ando, em que ele ou ela partiram para trabalhar para o estrangeiro, desconjuntando os seus lares.

Fazem-me lembrar os tempos em que os nossos emigrantes, fugindo à fome e à miséria, provocada pela política do Estado Novo, atravessavam montanhas como os Pirenéus em longas filas. Agora partem de avião ou de comboio, sujeitando-se a perigos imensos que entrevemos nas notícias de mortes inglórias e até violentas de alguns. É o que logo associo às filas de sírios e de outros Povos da Ásia, agora em busca de um lugar seguro e, curiosamente, quase nenhum órgão de comunicação social fala da guerra que as provoca. Nenhum deles fala dos rebeldes e do Estado Islâmico- Falam todos com enviesamento vesgo de Bashar Hafez al-Assad, o presidente sírio, deixando de parte tudo o resto.

Há dois anos estive na Letónia, onde episódios de emigração forçada aconteciam também e o destino era sempre os países desenvolvidos da Europa, que assim ganham emigrantes de alta qualidade, cuja formação não pagaram. É o resultado perverso de um neoliberalismo cego, que sobrecarrega os estados com os custos da sua ineficiência no controlo de fraudes bancárias, de produtos industriais de fraca qualidade como acontece agora com a Volkswagen.

Acontece porque acreditamos num Estado Neoliberal sem controlo democrático e muita treta, ou seja com “muita parra e pouca uva”, que os seus sequazes propalam num psitacismo, que faz lembrar um qualquer papagaio, que, por vezes, até pode ser violento, propondo só mais austeridade

E como já sabemos que não nos leva por bons caminhos abandonemo-lo ou melhor repudiemo-lo.

 

1 Júlio de Castilho – Fastos Portugueses: Poema em Seis Livros, Livraria Ferreira, Lisboa, 1918, p. 17.

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