Regionalização trará ao país um aumento de conflitualidade

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P – Um século tem um grande peso. Mas a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra tem uma memória muito anterior?

R – Estes 100 anos vêm depois de muitos 100 anos. Porque a verdade é que a Faculdade de Letras – que é criada dentro do processo da transformação da Universidade de Coimbra com a instauração da República –, vem na sequência da extinção da Faculdade de Teologia. E, de resto, já tinha o seu antepassado nas Artes, que vêm desde o século XVI. Os primeiros professores da Faculdade de Letras, os catedráticos, desde logo o seu primeiro diretor, o Professor António Ribeiro Vasconcelos, vinham todos de Teologia. Portanto, esta é uma faculdade com 100 anos, mas que tem atrás vários outros 100 anos e esse é um passado de que nós temos orgulho.

P – Esta é uma casa onde se cultivam as Humanidades. E as Humanidades servem sobretudo para ensinarem a pensar. E disso é necessário que não se desista?

R – E disso não vamos desistir. Porque acreditamos que esta reflexão e as competências que damos aos nossos alunos são indispensáveis, cada vez mais indispensáveis. Uma boa parte do pensamento que se produziu em Portugal ao longo do século XX passou por grandes vultos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: basta lembrar professores como Sousa de Carvalho, Mendes dos Remédios, Sílvio Lima, Miguel Baptista Pereira, Paulo Quintela, Victor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira, Américo da Costa Ramalho, o primeiro diretor, António Ribeiro Vasconcelos. E poderia citar tantos mais mestres de que a Faculdade de Letras se orgulha.

P – Que formaram muitas gerações de portugueses?

R – Foram esses que fizeram a nossa escola. E essa herança não é inútil no exercício de profissões que não sejam simplesmente ensinar. E essa é outra mudança de paradigma. Quando eu entrei na Faculdade de Letras, como aluno, sabia o que queria ser e sabia que podia ser professor, seguramente de português, mesmo que fosse no ensino secundário. Hoje, quando os alunos entram aqui não sabem o que irão fazer na vida. O essencial é fazer um curso de que se gosta. O que se vai fazer com o curso é já outra questão. Hoje, os engenheiros podem ser engenheiros ou podem trabalhar na área da gestão, ser diretores comerciais de empresas, como há juristas que fazem outras coisas que não têm nenhuma relação com a área. Nas Humanidades também pode acontecer isso, nas empresas da área industrial podem trabalhar historiadores ou filósofos ou diplomados em línguas. A sua mais-valia é uma enormíssima capacidade de absorção de conhecimento e uma enormíssima capacidade de comunicação. E as empresas não podem prescindir disto.

P – É preciso mudar mentalidades?

R – Também a dos nossos alunos. Um aluno de letras tem de saber que amanhã pode trabalhar com dinheiro, com números, na área financeira, na gestão, numa empresa. O que lhe surgir, pode realizar sempre. Vivemos durante muito tempo um divórcio entre pensar o ser humano e ser um ser humano no quotidiano. No dia em que conseguirmos realizar isto, teremos uma sociedade mais humana, mais solidária e, acredito, mais capaz de crescer.

P – Numa ambição assumida de ligação à comunidade e internacionalização, qual é o contributo que a Faculdade de Letras pode dar à Universidade de Coimbra?

R – Um grande contributo. A relação com a comunidade é cada vez mais intensa e começa logo pelos estágios que todos os nossos alunos fazem um pouco por todo o país e em todas as áreas: em Turismo, fazem estágio em agências de viagem, câmaras municipais, hotéis; em Alimentação fazem estágios na restauração; em Estudos Europeus, fazem em Portugal e na Europa; em Jornalismo, fazem nas televisões, nos jornais – no DIÁRIO AS BEIRAS, também –, em Portugal e em Macau; os alunos de Arqueologia correm esse mundo, ainda recentemente estiveram dois estagiários num campo na Síria, no velho território da Mesopotâmia e o trabalho deles foi muito elogiado. Estamos em força no Programa Erasmus, embora a Universidade de Coimbra continue a receber mais alunos do que a enviá-los, o que se explica com a capacidade financeira limitada das nossas famílias, comparada com a da Europa.

P – A internacionalização também acontece ao nível da investigação?

R – Os nossos docentes estão permanentemente envolvidos em projetos internacionais. Não há semana nenhuma que não haja cinco, seis professores no estrangeiro a participarem em projetos diversos. E as nossas parcerias com universidades estrangeiras são muito intensas. Já lhe falei da parceria com a Síria, estamos a estudar parcerias com a Líbia, estamos a protocolar com Macau, temos uma parceria de formação com a Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, temos várias com o Brasil. Além do Grupo de Coimbra, fazemos ainda parte de um grupo de faculdade de humanidades europeias – com uma de cada país –, a Rede de Praga, de que eu integro agora a comissão executiva. Estamos a promover a criação de cursos em regime de co-tutela, que já existem com Munique, com Maputo, com várias universidades francesas, brasileiras, inglesas, estamos a preparar com uma universidade de Malta. Acompanhamos desde o início vários projetos ligados ao ensino em Timor. E neste momento temos um grupo de funcionários do Ministério da Justiça timorense que veio aprender português. De facto, o índice de internacionalização da FLUC é verdadeiramente notável.

P – Falava da venda de serviços à comunidade?

R – Exato. E um dos mais importantes é o grande número de cursos livres, nomeadamente na área das línguas (chinês, japonês, árabe, inglês, italiano, espanhol). Este é um dos nossos emblemas e é igualmente uma fonte de receita.

P – Mas também é necessário à faculdade reinventar-se a esse nível?

R- É. Sem dúvida. Caso contrário, não sobrevivíamos. O que acontece igualmente com as traduções, a elaboração de cartas educativas um pouco para todo o país. Fizemos a Carta Desportiva dos Açores, a Carta Social da Figueira da Foz e de outros três ou quatro concelhos do Centro. Estamos neste momento a costurar a Carta Educativa Nacional, a partir de todas as cartas educativas. Projetos igualmente na área da História, no âmbito do QREN, ganhámos ainda agora a candidatura com Penela relativa às fortificações do Mondego, uma outra em Montemor que visa desenvolver projetos de natureza histórica e cultural. Se juntarmos tudo isto, falamos de serviços que podem representar milhões de euros.

P – Vamos agora ao encontro do país. A crise está instalada. Que lugar tem a educação no combate que é necessário fazer-lhe?

R – A educação não foi e continua a não ser tratada como deve ser. Não tem havido projeto estratégico para a educação em Portugal. Eu fiquei a pensar que haveria com a anterior ministra da Educação, confesso. Acreditei que tinha um projeto estratégico, penso que não soube concretizá-lo. Rodeou-se de uma equipa que não a ajudou a concretizá-lo. Mesmo quando não soube gerir o conflito com os professores, os portugueses perceberam que Maria de Lurdes Rodrigues queria que houvesse avaliação entre os professores. E os professores nunca conseguiram convencer os portugueses que queriam que houvesse avaliação.

P – No seu entender a avaliação dos professores é fundamental?

R – É fundamental. Temos de fazer a avaliação. O problema é que mudou a equipa e perdeu-se a estratégia. E a educação não pode mudar ao sabor das mudanças de governo. A educação devia ser sempre um projeto de regime, um pacto de regime. E não tem sido. E isso cria um problema complicado. Porque o processo educativo envolve um conjunto de anos muito razoável, o tempo escolar de uma criança que faça todo o ciclo, até ao superior, é de 20 anos. E eu pergunto-me se as mudanças ocorrerem de dois em dois anos, quando muda o governo ou quando muda o ministro, quantas alterações houve na vida de uma criança desde que entra até que sai do ensino? Isto envolveria um pacto de regime, que nunca se conseguiu fazer.

P – Isso foi visível nos últimos anos?

R – O que aconteceu nestes últimos anos é particularmente significativo. Face a um conflito que a antiga ministra não conseguiu gerir com os professores, a opção foi arranjar alguém que lhes desse razão, gastando dinheiro. Agora, de repente, falta o dinheiro e o governo está a ameaçar de morte muitas instituições que durante larguíssimos anos foram responsáveis pelo complemento do ensino em Portugal, os colégios privados que têm regimes de convenção com o Estado. Não se pode, de um momento para o outro, acabar com este sistema, tanto mais que não há lugar no ensino público para todas essas crianças. Ou então diz-se às famílias que têm de pagar muito mais, ou despendem-se os professores porque são descartáveis. Há aqui uma série de injustiças e uma série de assimetrias que não são aceitáveis. E a região Centro é pródiga em exemplos: em Quiaios, na Granja, no Louriçal, em Almalaguês. Todos colégios particulares importantíssimos no acolhimento de crianças, resolveram problemas muito sérios de falta de resposta do sistema educativo em Portugal. Agora, porque o Governo não soube gerir devidamente o dinheiro, porque não soube gerir devidamente o conflito com os professores, entre outros motivos, corta-se ali como se aquele elemento fosse descartável. E isto não é resolver, é agravar o problema da educação em Portugal.

P – E Portugal não pode correr esse risco?

R – Não pode. Portugal tem de fazer uma aposta estratégica na educação e na cultura. É fundamental. É isso que nos levará a dar o salto. Porque o contrário disso foi o que fez o regime da ditadura. E continuamos hoje ainda a pagar isso muito caro. Há uma distância imensa entre o que o Governo apregoa e o que faz do ponto de vista da política educativa.

P – Acredita que é possível chegar a esse pacto de regime?

R – Com os atuais líderes políticos não, de um lado e do outro. Os que estão no poder e os que estão na oposição. São iguais. São tirados a papel químico, um tem mais sorriso, outro tem menos sorriso, mas não saberão fazer pactos de regime. Um pacto de regime seria, por exemplo, num momento dramático como aquele que o país vive, encontrar uma solução governativa consensual, mas a solução governativa consensual passaria por nenhum dos dois [Sócrates ou Passos Coelho] ser primeiro-ministro. E nenhum dos dois está disposto a abdicar dessa ambição e, portanto, não se encontrará nenhuma solução.

P – A ambição dos políticos vai continuar a sobrepor-se ao que o país necessita?

R – Vai, vai. E o país neste momento precisava de encontrar soluções consensuais e não soluções de guerrilha institucional, que é ao que nós estamos a assistir todos os dias, de uma forma irresponsável de quem dá esse espetáculo.

P – É um adepto da regionalização?

R – Já fui, mas cada vez sou menos adepto da regionalização. Porque de cada vez que vejo os deputados da Madeira terem uma opção de voto diferente só porque são da Madeira, ou o Dr. Alberto João Jardim a apregoar o que apregoa e como apregoa, ter a força que tem e como a tem, ou os conflitos que acontecem por causa dos Açores entre um Presidente da República (eleito por alguns milhões de portugueses), e um líder regional (que é eleito por 200 mil) de cada vez que olho para isto, pergunto-me se nós tivéssemos seis regiões em Portugal, com seis Albertos João Jardim, como é que seria o país? Cada vez menos sou adepto da regionalização que já defendi.

P – Antevê um aumento de conflitualidade com a regionalização?

R – Antevejo um aumento de conflitualidade, um aumento de caciquismo no sentido político da palavra e um aumento de poder e lóbi regional que, num país com a dimensão de Portugal, não faz sentido.

P – Ao invés, acredita na coesão regional do Centro?

R – A região Centro tem de, primeiro, descobrir o seu figurino. Coimbra tem de encontrar o seu lugar no Centro e a região Centro tem de encontrar o seu figurino. O problema da região Centro é que tem um conjunto de micro regiões que não vivem em paz umas com as outras. Vivem em concorrência e em conflitualidade.

P – Nomeadamente, as suas Leiria e Coimbra?

R – Nomeadamente. Eu já disse coisas perfeitamente disparatadas, hoje reconheço que não as devia ter dito. Mas, paciência, nós em cada momento dizemos aquilo que entendemos dever dizer e depois somos livres de corrigir e quem tem bom senso corrige. Eu hoje vejo muito mais intensa a ligação de Leiria a Coimbra do que via há uns anos atrás. Mas vejo que Leiria e Coimbra continuam a conflituar. Vejo que Coimbra conflitua com Aveiro. Vejo que Viseu, que cresceu muito, conflitua com Coimbra e conflitua com Aveiro. E não tenho a informação suficiente para perceber como estamos com Castelo Branco e com a Guarda, porque, talvez também haja aqui um conflito de qualquer natureza.

P – Mas esta é uma região que devia afirmar-se, com força, no país?

R – Devia. Devia porque ocupa um espaço importante. O problema é que ocupa o espaço por negação e não por afirmação. É um espaço que ocupa por exclusão de partes: a região Centro não é a soma de tudo isto, é o que não é Lisboa e o que não é o Porto. A região Centro, em si, ainda não descobriu a sua afirmação. E isso não chega. O Alentejo, sabemos o que é, o Algarve, sabemos o que é. A região Centro é o que está entre Lisboa e o Porto. Parece-me pouco. O Centro precisa de construir uma identidade.

P – Já foi governador civil de Leiria. Voltaria ao exercício da política ativa?

R – Fui governador civil de Leiria e essa foi uma experiência interessante, mas que eu não repetiria. Quanto a voltar ao exercício da política ativa, nunca podemos dizer que não. Porque não podemos prever o futuro. O que eu posso dizer é que gosto muito de fazer o que faço. Ser diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra é, provavelmente, o desafio mais aliciante e é, seguramente, o desafio mais difícil de quantos enfrentei até hoje. E tive alguns. Fui governador civil, liderei um projeto empresarial. Tive vários desafios, todos eles interessantes, mas o cargo de diretor da faculdade é seguramente o mais complexo e o mais exigente. Regressar à política ativa não está nos meus horizontes, porque gosto do que estou a fazer. De novo um governo civil, nem pensar. A mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Ou, como diz um amigo meu, com um ar de graça muito português e um tanto marialva, boi picado não volta à arena.

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