A saúde que necessitamosOpinião

Trinta anos a tratar colunas, e uma vida a tentar compreender a falta de coluna do país

04 de novembro de 2026 às 09 h30

Aos 53 anos, depois de três décadas dedicadas à cirurgia da coluna vertebral, começo a suspeitar de que escolhi a profissão errada. Passei a vida a estudar anatomia, a aperfeiçoar técnicas cirúrgicas e a tentar devolver qualidade de vida aos que a perderam. Talvez devesse ter dedicado algum desse tempo à montagem de tendas em espaço público. Pelos vistos, há competências que garantem hoje maior visibilidade do que trinta anos de exercício profissional.

Sou cirurgião de coluna. Trabalho perto de 50 horas por semana, no setor privado, onde vigora um princípio relativamente simples: se não trabalho, não recebo. Não há rendimentos garantidos, nem subsídios que compensem a ausência de atividade. Há trabalho, responsabilidade, risco e uma obrigação permanente de atualização científica. Nunca considerei isso um sacrifício extraordinário. Escolhi esta profissão e o modelo de trabalho porque gosto profundamente do que faço. Mas confesso que, com a idade, começo a observar com alguma perplexidade a forma como a sociedade portuguesa se relaciona com o mérito, o esforço e o sucesso.

Na medicina aprendemos cedo uma lição fundamental: não se trata uma doença combatendo apenas os seus sintomas. Uma dor pode ter múltiplas causas e uma imagem aparentemente exuberante pode esconder um problema sem grande significado clínico. Na política portuguesa parece acontecer precisamente o contrário. O sintoma é elevado à categoria de diagnóstico, o protesto substitui a proposta e a indignação tornou-se uma espécie de competência técnica, dispensando frequentemente a obrigação de apresentar soluções.

Em Portugal, temos desenvolvido uma extraordinária capacidade de confundir tratamento com anestesia. Perante cada problema, surgem novas prestações, novos programas, novos regulamentos, novos observatórios e uma quantidade crescente de entidades encarregadas de estudar aquilo que todos já perceberam. O doente continua com dores, mas a comissão de acompanhamento apresenta sinais vitais excelentes.

Num bloco operatório, as boas intenções não bastam. Uma hérnia discal não desaparece por consenso ideológico, uma instabilidade vertebral não se corrige com um manifesto e uma compressão medular não espera pela conclusão de uma assembleia plenária. Talvez por isso tenha desenvolvido alguma intolerância à facilidade com que, fora do bloco operatório, se tomam decisões sem assumir as respetivas consequências.

O que andam a fazer os nossos políticos?

Não sou contra a proteção social. Pelo contrário. Quem trabalha na medicina conhece demasiado bem a fragilidade humana para ignorar a importância da solidariedade. Vi pessoas perderem a capacidade de trabalhar, famílias destruídas pela doença e doentes cuja recuperação dependeu tanto da competência médica como do apoio da sociedade. Mas uma coisa é proteger a vulnerabilidade. Outra, muito diferente, é transformar a dependência num modelo permanente e deixar que a responsabilidade individual desapareça do discurso público.

Na medicina, o objetivo de um tratamento não é tornar o doente eternamente dependente de quem o trata. É, sempre que possível, devolver-lhe autonomia. Estranhamente, este princípio tão elementar parece suscitar alguma resistência quando aplicado à política social.

Não me incomoda contribuir para uma sociedade mais justa. Incomoda-me assistir à extraordinária facilidade com que o Estado exige eficiência aos cidadãos, enquanto demonstra uma tolerância quase comovente para com a sua própria ineficiência.

Gostaria de acreditar, que o esforço de quem trabalha, não é considerado uma reserva financeira ilimitada para compensar todas as insuficiências da governação.
Em cirurgia, existe uma regra de prudência: preservar tanto quanto possível as estruturas saudáveis. Nenhum cirurgião sensato remove tecido funcional apenas porque não conseguiu resolver o problema por outra via. Na fiscalidade portuguesa, contudo, parece por vezes vigorar o princípio inverso: sempre que o sistema apresenta dificuldades, aumenta-se a pressão sobre aquilo que ainda funciona.

Parece que, para alguns setores da sociedade, o problema não é propriamente a desigualdade. É a existência de pessoas que conseguiram construir alguma coisa através do seu trabalho. Sinto-me um privilegiado pela profissão que escolhi e exerço, mas estou igualmente consciente de que nada disso me torna superior a quem exerce outra atividade. A sociedade não vive apenas de cirurgiões. Vive de professores, agricultores, eletricistas, enfermeiros, operários, empresários, técnicos e de milhares de pessoas que todos os dias cumprem discretamente as suas responsabilidades.

Talvez seja precisamente por isso que me incomoda tanto a facilidade com que se desvaloriza quem trabalha, e se dá voz a alguns que pouco fazem.

Aos 53 anos, começo a sentir que a principal patologia portuguesa já não é apenas económica ou política. É uma espécie de degenerescência progressiva da noção de responsabilidade. Como acontece em algumas doenças da coluna, o processo é lento. Primeiro surgem pequenos sinais de desgaste. Depois instala-se a instabilidade. Mais tarde aparecem as limitações funcionais. E, quando finalmente se reconhece a gravidade do problema, já não basta recomendar repouso e esperar que tudo melhore espontaneamente. Há, contudo, uma diferença essencial: na coluna vertebral, a decisão de operar depende de critérios clínicos rigorosos. Na política, qualquer pessoa com um megafone parece habilitada a propor uma intervenção radical, mesmo sem conhecer minimamente a anatomia do problema.

Talvez tenha chegado o momento de reconsiderar a minha carreira. Poderia trocar o bisturi por uma tenda, os congressos científicos por assembleias populares e as noites no bloco operatório por vigílias reivindicativas. Não tenciono, naturalmente, partir montras ou destruir património. A minha formação profissional deixou-me uma convicção difícil de abandonar: quando uma estrutura está danificada, a nossa obrigação é tentar repará-la, não agravar a lesão.

Por enquanto, continuarei no bloco operatório, a fazer aquilo que sei e gosto de fazer. A estudar, a operar, a assumir responsabilidades e a contribuir com os meus impostos. Sem pretender ser um herói e sem exigir qualquer reconhecimento especial.

Mas com a convicção, cada vez mais profunda, de que nenhuma sociedade consegue manter-se de pé durante muito tempo, se deixar de valorizar as estruturas que a sustentam: o trabalho, o mérito, a liberdade, a solidariedade e a responsabilidade.

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