Todas as cores
Akira Kurosawa faleceu a 6 de setembro de 1998. Quase três décadas depois, o seu legado enquanto mestre do cinema japonês continua vivo, através de obras como “Ran – Os Senhores da Guerra”.
Uma nuvem majestosa, centrada num dos planos de transição de Ran – Os Senhores da Guerra, ergue-se contra o brilhante pano azul do céu do oriente, ocupando quase todo o ecrã. Refém da estática de uma pintura naturalista, quase a chegamos a ver transmutar-se, a reagir ao tempo. Todavia, é nesse mesmo momento de antecedência da metamorfose que o realizador, Akira Kurosawa, nos priva do prazer da visualização, e nos impele à obrigação de imaginar.
Esta e outras nuvens sobrevoam o consílio dos senhores da guerra. Entre a partilha de dogmas e outros ensinamentos, o líder Hidetora Ichimonji (Tatsuya Nakadai) solicita a cada um dos três filhos que partam uma seta a meio, missão que conseguem cumprir sem grande esforço. Em seguida, depois de unir três setas no tubo da mão, ordena-lhes o mesmo pedido: de acordo com o que Ichimonji antevia, os dois filhos mais velhos não conseguem quebrar a união.
Porém, o mais novo sucumbe à rebeldia e, levando-as à perna como se de uma flecha se tratasse, divide as três setas em seis metades. Perante todos os súbditos, desaprova a teoria do pai que, sendo o líder, está prestes a abdicar do poderio sobre os terrenos e os três castelos que pela vida fora conquistou. E assim cai por terra o desejo de, através do simbolismo do seu ensinamento, unir os três herdeiros.
“Os filmes do mestre do cinema japonês Kurosawa são irrepetíveis, pois são retratos elementares da natureza, essa mãe que por si só, embora goze dos regozijos da eternidade, se comporta de forma passageira para sobreviver”

Nesta metáfora jaz o conflito de Ran. Apesar disso, este épico, como o botão de uma flor que desabrocha em pétalas de várias cores e feitios, é muito mais do que esse ponto de partida e do confronto bélico que dele advém.
Surgida de uma espécie de paleta infinita, ao contrário de boa parte da filmografia do autor, que é passada em quadrados tingidos a preto e branco, esta obra sobre frontalidade está pintada de todas as cores possíveis. Escrevo no presente porque a tinta parece não secar, mesmo quarenta anos depois, sobretudo quarenta anos depois, porque cada tom cromático carrega o seu significado, e contribui para a história como uma linha de diálogo inesquecível, um corte certeiro após uma sequência triunfal, ou um pedaço de cenário em que podemos encontrar os nossos sonhos.
Os filmes do mestre do cinema japonês Kurosawa são irrepetíveis, pois são retratos elementares da natureza, essa mãe que por si só, embora goze dos regozijos da eternidade, se comporta de forma passageira para sobreviver, dando como moeda de troca a sua constante e inevitável transformação. Embora faça parte da fase tardia do realizador, Ran é uma obra à maneira tradicional, que veste uma história universal (a narrativa é baseada em Rei Lear, de Shakespeare) de roupas orientais e a transporta tanto no tempo como, lá está, no lugar.
Apesar de todas as cores, comparando-o com os tempos modernos da sétima arte, Ran pode parecer, à primeira vista, um filme datado. Mas para se conduzir na estrada das grandes obras é preciso sempre colocar o cinto do contexto: só dessa forma seremos capazes de compreender o que os autores queriam então dizer.
Se estivermos mesmo a conduzir pelas curvas e contracurvas de um grande filme, nem sequer vai ser necessário recuar no tempo para acharmos o motivo da sua arte: ele estará pintado a toda a nossa volta.
