SMTUC: Reorganização das linhas afasta passageiros
A Câmara Municipal aprovou alterações à rede dos SMTUC em mais de 20 linhas, com entrada em funcionamento prevista já para o próximo dia 10 de setembro.
A justificação é a necessidade de adaptar a rede à chegada do MetroBus à Praça da República e aos cortes excessivos de trânsito na Baixa de Coimbra, aprovados pela Senhora Presidente da Câmara. Mas adaptar não deveria significar amputar linhas existentes e obrigar milhares de passageiros a fazer transbordos.
Várias linhas dos SMTUC vão deixar de assegurar ligações diretas entre a Baixa e a Praça da República, remetendo obrigatoriamente os passageiros para o MetroBus. Segundo os SMTUC, cerca de 3.840 viagens diárias passarão a impor transbordos e cerca de 530 viagens serão diretamente transferidas para o MetroBus.
Obrigar sistematicamente ao rebatimento entre modos reduz a atratividade do transporte público e afasta passageiros. Para um idoso, uma pessoa com mobilidade reduzida ou alguém que transporta crianças ou compras, pode inviabilizar a viagem. Obrigar passageiros a percorrer mais de 400m entre paragens, a pé, como acontece entre o Arnado e a estação “Câmara”, não é intermodalidade. Ultrapassa mesmo o plano operacional: é uma questão de acessibilidade e equidade.
Eliminar redundâncias pode ser racional quando representam duplicação desnecessária na oferta. Mas redundância entre diferentes modos e linhas de transporte não é necessariamente ineficiência. Pelo contrário, pode representar maior robustez, resiliência e flexibilidade, oferecendo alternativas aos utilizadores, reduzindo a vulnerabilidade do sistema perante falhas ou constrangimentos operacionais, contribuindo ainda para a fidelização de clientes nos SMTUC.
Por isso, os princípios para a revisão global da rede dos SMTUC, aprovados pela Câmara em 2024, apontavam para a minimização dos transbordos e para a criação de linhas diretas de ligação entre as 11 áreas-âncora da cidade. Estes princípios estarão agora a ser abandonados?
Igualmente preocupante é saber que estas alterações não foram articuladas com a reorganização global da rede dos SMTUC em curso. Impõe-se uma alteração profunda da oferta, com impacto em milhares de passageiros, para voltar a alterar assim que o Metrobus chegar ao Pediátrico.
A agravar, estas alterações têm custos acrescidos para alguns utilizadores. Este executivo, acaba de realçar o seu erro estratégico, quando, no início deste ano, decidiu diferenciar a subsidiação dos passes bonificados, atribuindo apoios superiores aos títulos monomodais exclusivamente válidos nos SMTUC, numa tentativa de fixar a procura do operador municipal. Poucos meses depois é o mesmo executivo que empurra os clientes dos SMTUC para o MetroBus, podendo perder mais de 1,2 milhões de viagens anuais.
Os SMTUC precisam de uma rede moderna e articulada com o MetroBus. Mas precisam, sobretudo de garantir um serviço público centrado nas necessidades das pessoas. Intermodalidade não pode significar obrigar a mudar de autocarro. Modernização não pode significar eliminar ligações diretas. Eficiência não pode ser confundida com uma forma encapotada de cortar serviço, transformando as pessoas em meras estatísticas.
Se o objetivo é ganhar passageiros para o transporte público, talvez fosse importante começar por não dificultar a sua utilização.
