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Guerra e amor

01 de setembro de 2026 às 19 h00

“Cartas da Guerra” estreou-se nos cinemas portugueses a 1 de setembro de 2016. A celebrar uma década de existência, a data coincide com o aniversário do autor da obra adaptada, António Lobo Antunes, que faria 84 anos em 2026.

Reside, nas profundezas da obra de António Lobo Antunes, uma forte de falta de pertença. O sentimento segue o autor para todo o lado, como uma sombra ou um cão esgazeado de fome, o que significa que surge dele próprio e não do que o rodeia. Quando António navegou para África, ficou em Lisboa; quando retornou a Lisboa, os restos de si ficaram em África.

Cartas da Guerra, adaptação de Ivo M. Ferreira da obra epistolar “D’este viver aqui neste papel descripto”, transporta para o grande ecrã a correspondência enviada por Lobo Antunes à primeira esposa, Maria José, durante o cumprimento do serviço militar enquanto médico na Guerra Colonial Portuguesa. Seguindo o pensamento coletivo sobre o cinema português, é quase intuitivo ser crítico com esta obra.

Para começar, os cinéfilos mais puritanos julgarão ultrajante um filme ser narrado. Depois, sentir-se-ão mergulhados no aborrecimento quando, sem motivo aparente (diria que a depressão inerente ao momento narrado o justifica), uma história contemporânea é contada sem uso da cor.

 

“Por estarmos a escutar o português, língua romântica que em segundos tropeça no ridículo à boleia da oralidade, revirarão os olhos à representação teatral dos atores, talvez demasiado à portuguesa (o que até assenta bem ao filme)”

 

De qualquer das maneiras, a poética de António Lobo Antunes, o escritor que temia não ser poeta, que invejava os grandes trovadores do seu país mas jamais confessava admirar ficcionistas, justifica tudo o enunciado, e ainda mais.

Quem leu a sua obra embrionária (em particular Os Cus de Judas), que acontece na África que o autor desejava não ter conhecido, vai reencontrar em Cartas da Guerra passagens conhecidas. Até porque essas linhas de pensamento corrido vão ficar riscadas na parede da nossa memória, tal qual os dias assinalados por um prisioneiro numa soma que se queria subtração.

Ivo M. Ferreira articulou um trabalho louvável ao nível dos cenários, em particular na representação daquilo que terá sido o que apenas, e ainda bem, poderemos hoje imaginar: essa África em que ninguém queria estar, à qual ninguém parecia pertencer, mas de que ninguém se conseguia ver livre.

 

“Ainda assim, o realizador quebrou as regras da suposição e deu vida às palavras em que muito pouca gente ousou tocar. Se isto não é coragem, então não sei o que será”

 

E há um respeito enorme perante uma ideia sobre a qual António Lobo Antunes sempre se mostrou teimoso nos meandros da esfera pública: o Ultramar não foi romântico nem bonito, algo que mereça grandes epopeias ou outros esforços narrativos que tal; foi apenas uma reza muito longa para sobreviver até ao dia de amanhã, brilhasse o sol ou cantassem as trevas. Ali imperava o ódio, embora não se soubesse bem do quê, porque ninguém fazia ideia sobre quem estava a atirar, se estava sequer a matar, ou se apenas salvava alguém daquele inferno na Terra.

No meio de toda a confusão que foram aqueles dois anos floresceu a correspondência entre duas pessoas que viviam uma grande fatalidade comum a tantos casais: a impossibilidade de se verem, acrescida da incerteza sobre se o reencontro vai algum dia acontecer.

Mesmo quem não leu o livro fica com uma certeza: estas cartas são nenúfares de amor que cresceram, sabe-se lá como, em charcos lamacentos de guerra. Talvez sejam uma inevitabilidade do autor; talvez sejam resultado do lugar onde foi parar. De todo o modo, são também um pedaço da nossa história: em livro ou em fita fílmica, são a maneira que teremos na posterioridade de testemunhar parte da vida extraordinária que este homem terá tido, pois nem só de palavras carregadas de ira se contam as descidas ao inferno.

 

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