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Opinião: Quer queiras, quer não… corre…despacha-te…avança…rápido!

10 de dezembro de 2024 às 15 h13
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Na caixa de um supermercado, antes de pagarmos, deixamos as nossas compras para trás e esperamos recebê-las no outro lado do tapete rolante, após atravessarmos a barreira do alarme.

Entretanto, um a um, o funcionário faz o registo digital dos produtos que, depois de rastreados por um scanner de leitura do código de barras, nos são entregues para o devido empacotamento. Até aqui tudo correto, não fosse, em muitos casos, a velocidade com que se processa a operação.

Sobretudo quando existem filas de espera, o cliente é confrontado com um fluxo incontrolável de pacotes de arroz e de massa, latas de salsichas, garrafas, embalagens de fruta, tudo o que tenha sido comprado lhe é atirado para cima, a um ritmo que exige uma resposta rápida, veloz e eficiente.

Para que o volume não se acumule nem desorganize, são necessárias duas mão livres, braços ágeis, uma destreza física bem treinada e um saco devidamente aberto para que tudo possa ser acondicionado a tempo de evitar os olhares de censura dos clientes que aguardam a sua vez.

Ao mesmo tempo, na avenida lá fora, no semáforo que passa de vermelho a verde, é obrigatório que o primeiro automóvel arranque logo, rapidamente e em força, sem hesitações. Caso contrário, lá se ouvirão as buzinadelas do costume.
Nestas ‘Black Fridays” da moda, sem demoras, é preciso clicar nas páginas web ou visitar as lojas físicas, depressa e sem indecisões. Se assim não for, podemos já não encontrar a compra desejada.

Quando visitamos um parque temático, com um bilhete diário, o tempo não abunda e é imperativo usufruir do maior número possível de atrações. Sem descanso, tem de se estar aqui e ali, circular, limitar as esperas, seguir em frente, ir de fila em fila.
Acontece o mesmo quando se entra num centro comercial, sobretudo em épocas festivas, como o Natal. Como cada um dos espaços comerciais procura captar a atenção do cliente, a norma é a hipervisualização, o jogo de cores, a estética apelativa. Para quem deambula por estes corredores, está-se nos antípodas do paciente e pausado “flâneur” novecentista. Aqui, o princípio é entrar e sair, depressa, ir de paragem em paragem, sem atrasos, comprando e seguindo em frente.

Nas escadas rolantes de uma estação de metro em hora de ponta, a regra é avançar pela lado esquerdo, rapidamente, degrau a degrau. Quando se chega ao fim, deve seguir-se a avalanche de passageiros apressados. Não se sabe bem porquê, mas não é fácil resistir ao ritmo da coluna de transeuntes que correm para um qualquer destino indefinido.

Numa sala de espera de um aeroporto, já depois das formalidades, olha-se ansiosamente para o ecrã gigante e espera-se o número da porta de embarque. A informação será dada em dez minutos, cinco, quatro….e lá nos aparece- porta 7B! Nalguns casos, acrescenta-se uma informação suplementar- a distância-tempo até à mesma ( 20, 15, 10 ou mesmo cinco minutos). Ainda assim, depois de aparecer o número mágico- 7B, a tendência é seguir para a mesma, com a rapidez que se impõe e a velocidade possível.

Regressando ao supermercado, no balcão do peixe, da carne ou das refeições “rápidas”, é necessário tirar uma senha para o atendimento, esperar pela sua vez, mas também, sem distrações, perceber quando somos chamados no ecrã digital: senha 86? Se formos nós, que se vá em frente e se acelere. Se assim não for, é possível que, do 86, passe para o 87 ou para o 88. Se não chegarmos a tempo, perde-se a oportunidade e pode ser preciso regressar ao ponto de partida.

Alguma atenção à temporalidade imposta pelos media, pela publicidade e pelo marketing, mostra-nos a mesma tendência- não se atrase! Não perca a oportunidade! Não se deixe ultrapassar! Olhe que pode já não ir a tempo!

No nosso quotidiano, este ambiente frenético repete-se. Por voz ou por texto (os SMS’s e o WhatpsApp funcionam muito bem), lá vamos sendo avisados: “Então, já está a chegar?…Olhe que nós já aqui estamos….Ainda demora muito? Não se preocupe, …mas olhe que estamos à sua espera!”

Uff! Com este ritmo, será que se consegue respirar?

Como autómatos, estamos mergulhados num sistema de dispositivos materiais e imateriais, visíveis e invisíveis, conscientes e inconscientes, que nos retiram liberdade de escolha e nos aceleram a reação, o gesto, o comportamento, como se não fosse possível controlar o quotidiano, como se se tivesse abdicado da liberdade.

A Geografia tem-se interessado pela gestão do espaço. Contudo, a esta questão acrescenta-se uma outra- a gestão do tempo. Tem-se prestado mais atenção à primeira. Contudo, à medida que se avança na idade, a segunda ganha relevância e centralidade.

O tempo é o único património que se vai perdendo dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Irrecuperável, o tempo é o património que se estreita com a velocidade frenética imposta- de modo discreto, sem anúncios, sem que se pense muito no assunto.

Das múltiplas leituras que podemos fazer da “compressão espaço-tempo”, de David Harvey, esta é uma delas.
João Luís J.Fernandes. 2024. “As geografias e as contraordenações geográficas de…Mr. Bean”. Facebook, 09-12-2024, https://www.facebook.com/profile.php?id=100071315996511

Autoria de:

João Luís Fernandes

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