Opinião: Que tempo (estranho) é este?
Muitos pensam neste tempo como um tempo estranho e triste, de sacrifícios, de penitências, de jejuns e abstinências. Talvez por isso, muitos já nem liguem nada à quaresma, nem às práticas quaresmais.
A quaresma é um tempo de preparação, de caminho, de acertar agulhas, de afinar os pormenores, de preparar o coração. Trata-se de um tempo cheio de sentido, um tempo que me questiona por dentro e que me faz pensar no modo como vivo.
O que faço na terra, como a ocupo? Que sentido dou à minha vida? O que coloco em primeiro lugar? Quais são as tentações que me desviam do sentido profundo da vida? Quais as armadilhas a que estou preso? Quais as minhas faltas de amor? Quais os meus pecados? O que devia fazer e não faço?
Este tempo ‘estranho’ é também tempo que nos desafia a transfigurar o rosto, a experimentar a alegria dos recomeços, a saborear o perdão, a saber que temos um Deus que não nos abandona, a experimentar a esperança mesmo no meio das dificuldades, a desejar luz no meio da escuridão, a olhar para além da cruz e do sofrimento.
É o tempo favorável para reforçar a cumplicidade e a intimidade com Deus, a atenção aos mais frágeis e a viver mais do essencial do que dos excessos. A tradição fala de: jejum, oração e esmola. Três tópicos que estão intimamente ligados.
O jejum não é um plano de emagrecimento, mas a motivação para a frugalidade e o reconhecimento de tantos bens e de tantos dons que não temos o direito de desperdiçar num mundo onde tantos passam fome e vivem com tão pouco.
A oração não é um conjunto de práticas exteriorizadas e ritualizadas para dar nas vistas, mas uma afirmação pessoal e pública de uma relação fundamental que nos faz viver para além do imediato e da evidência – um qualquer coisa mais do que o agora.
A esmola não é uma moeda que cai na mão de um pobre para ficar com a consciência tranquila, mas um compromisso de ajuda, de escuta, de empenho. Uma partilha de bens, do que tenho e do que sou. Um viver para além do meu umbigo e dos meus interesses pessoais.
Como num ginásio temos um plano pessoal, também neste tempo podemos pensar em alguns exercícios para melhorarmos o ‘aspeto interior’ (nosso e do mundo): não usar telemóveis às refeições, ler mais, dedicar mais tempo aos amigos e familiares, rezar mais e participar em celebrações comunitárias, ouvir música, fazer silêncio, ter uma ação de voluntariado, partilhar dinheiro com uma instituição ou uma causa, cuidar da natureza e dos animais, andar mais a pé, andar mais devagar na estrada, não elevar a voz nem querer ganhar todas as guerras, sorrir no trabalho, pedir desculpa e dizer obrigado mais vezes, começar cada dia a agradecer o dom da vida e terminar cada dia a examinar o que podia ter feito melhor, confessar-me ou dialogar com um padre, telefonar a uma pessoa que sei que está a passar dificuldades… mudar o fundo do telemóvel com uma imagem que me inspire e me faça sentir num tempo diferente.
Não podemos fazer tudo, mas talvez possamos fazer mais…
