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Opinião: Portugal em chamas: até quando vamos falhar?

03 de setembro de 2025 às 10 h10
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Os incêndios rurais são um dos maiores riscos sistémicos do nosso país. Tecnicamente, um risco mede-se pela combinação da probabilidade de ocorrência e do potencial impacto. Infelizmente, em Portugal a probabilidade é elevadíssima: as condições climáticas não nos favorecem. Por isso, todos os anos, Portugal arde.

E, nalguns anos, a tragédia assume proporções devastadoras. Perdem-se vidas, destroem-se florestas, arruínam-se formas de sustento, libertam-se milhares de toneladas de carbono para a atmosfera. Todos sabemos. Todos os Governos sabem.

Então, por que continuamos a falhar? Por um motivo principal: a insistência numa abordagem simplista e errada. Depois de um Verão particularmente grave, sucessivos Governos têm repetido o mesmo guião: apoios às populações, mais uns quantos aviões e camiões, e alguns operacionais adicionais. Está mais do que demonstrado que isso não resolve o problema. Não é possível resolver um problema sistémico e complexo com uma abordagem setorial. Não basta olhar unicamente para a proteção civil e os bombeiros. É preciso mobilizar o país inteiro e colocá-lo a trabalhar em conjunto – Governo, Universidades, Empresas, Sociedade Civil.

Olhando para outros países com riscos naturais catastróficos, o Japão dá-nos uma lição. É um dos países de maior risco sísmico e sabe que não é possível evitar os sismos nem prever quando irão ocorrer. Então, o que fez o Japão? Organizou-se para lidar com o problema. A arquitetura e a engenharia desenvolveram métodos singulares de cálculo estrutural e técnicas construtivas próprias (sistemas de amortecimento, fundações especiais). As universidades estudam o assunto com profundidade e as empresas criam soluções e produtos específicos. Foi criado um sistema de deteção e alerta precoce, que notifica a população em tempo real.

A proteção civil planeia, capacita-se e treina para intervir a qualquer altura. As cidades possuem locais e abrigos específicos para evacuação e alojamento temporário. Os Planos de Emergência são levados a sério e a sociedade civil está consciente e bem informada, aprendendo desde criança como reagir. Em síntese, todos os setores estão ativamente envolvidos. O Japão transformou um risco inevitável num exemplo de preparação, inovação e resiliência reconhecido em todo o mundo.

E Portugal? Também pode. Primeiro, reconhecendo que os incêndios são praticamente inevitáveis. Depois, organizando-se para os enfrentar de forma inteligente e integrada. Finalmente, assumindo que pretende ser uma referência no conhecimento e na forma como lida com este problema, ajudando depois outros países a enfrentá-lo.

As causas dos incêndios são múltiplas e profundas: para além do clima, o desordenamento do território, o envelhecimento da população e o abandono do Interior, a falência do modelo económico tradicional de exploração florestal, entre muitas outras. Tem também muitas vertentes de atuação: prevenção, deteção precoce, rápida avaliação do risco e combate. Só será possível resolver este sério problema quando o abordarmos na sua totalidade.

O caminho terá de começar por uma reflexão profunda, envolvendo toda a sociedade e incluindo tanto os especialistas no assunto (universidades, operacionais, populaçã o) como vozes reputadas de outras áreas, capazes de trazer novas ideias e soluções “fora da caixa”.

Deixo, por isso, um conjunto de perguntas que merecem um debate sério e respostas cabais:
• Como reordenar o território? Devem os pequenos aglomerados rurais ser reforçados ou abandonados de vez? A partir de que dimensão e densidade?
• Devemos aceitar as Cartas de Perigosidade de Incêndio Rural como estão ou revê-las? São demasiado restritivas ou uma imperiosa adaptação a uma nova realidade?
• As aldeias e as explorações isoladas devem ser obrigadas, por lei, a ter reservas próprias de água (charcas, cisternas, depósitos) com determinada dimensão?
• Como diversificar e rentabilizar os modelos de exploração florestal? Que incentivos podem ser criados para a gestão sustentável, um melhor aproveitamento da biomassa, o pastoreio? Deverá haver pagamento por serviços de ecossistemas?
• Que medidas podem contribuir para fixar e atrair população nos territórios rurais?
• Os Bombeiros devem ou não ter um comando próprio (como reivindicam há anos)? Quais as vantagens e desvantagens desta opção?
• Mais meios aéreos resolvem mesmo? E se em vez de 2 ou 3 meios aéreos (como é típico acontecer), o incêndio fosse logo atacado por 10 aviões, isso faria diferença?
• Deve a Força Aérea ter um papel central? Em caso afirmativo, o que é necessário para tal?
• Por que continuamos a comprar aviões e camiões “lá fora” em vez de os projetar e fabricar em Portugal? O que é preciso para criar este cluster industrial, como aconteceu recentemente com o setor aeroespacial?
• Por que não lideramos no desenvolvimento de soluções tecnológicas nesta área (drones para vigilância, sensores, modelos de simulação de propagação de incêndios, equipamentos de proteção, etc.)?

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